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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Índia, te visito.

      Seriam minhas primeiras férias remuneradas. Carteira assinada, férias registradas, tudo muito adulto, lindo. Eu pensando em me enfiar em qualquer praia cheia de mosquitos e minha irmã, meses antes, prevendo meu rito de passagem para a vida adulta, começou a sovar a minha mente pra irmos juntas à Índia. Quase ninguém ia pra Índia nesta época. Não daqui, do Brasil. Não era moda, tendência, coisa nenhuma. Era sempre cara de nojo, de susto, de dó. Mas lá da Inglaterra, onde ela morava, era trendy. Todos iam e voltavam, e iam novamente, comedores de curry insaciáveis e apreciadores de viagens baratas. Quase gratuitas pra eles. Acho até que voltavam com mais dinheiro do que iam. As libras, de tão fortes, se reproduziam no caminho. Enfim, ela tanto fez que convenceu-me a ir. Eu pagaria minha passagem até a Inglaterra e ela me emprestaria o dinheiro pra passagem de Londres à Nova Delhi. Prevendo um possível calote, ela a comprou de uma companhia bem chinfrim, que faria a viagem tornar-se uma lamúria eterna: Kwait Airlines. O que ainda não foi revelado é que ela havia partido rumo à Índia dois meses antes, e o trajeto foi feito por mim, de Londres à Delhi, na solidão da ignorância dos detalhes que tanto me incomodaram. Voo longo, escala demorada em Bahrein, dezenas de pessoas com tosses intermináveis, crianças chorando, tripulação impaciente com a simplicidade dos passageiros e um cheiro de curry pelo qual eu me apaixonaria tempos depois. Na escala em Bahrein eu era a única mulher vestindo calça jeans. A única mulher viajando desacompanhada. A única bizarrice com uma mochila nas costas. A que valia menos camelos! Crise de autoestima! Mas eu chegaria sã e salva à Delhi, onde minha bela irmã caçula estaria me esperando, sorridente, às 3 da manhã, vinda de não sei onde, somente para me recepcionar! Que regozijo! Que alegria! Mas não poderia estar mais enganada. E apenas um dia inteiro depois de muita aflição, o destino reuniria estas duas incautas irmãs. 
O pouso em Delhi foi qualquer coisa de surreal. Um apagão de dimensões continentais afligia o norte todo da Índia, Nepal, Bangladesh e arredores. Vista de cima, a cidade parecia um vilarejo parcamente iluminado. Luzes fraquinhas e espalhadas na imensidão do breu. Impossível pousar. O piloto começa a dar voltas. Gostaria mesmo de dizer, se pudesse: voltas redondas em círculos bem arredondadinhos... pra se ter noção da sensação que sem tem em voar em ciclos no breu quase total, depois de muitas horas confinados. O denso fog tornava o pouso ainda mais incerto e perigoso. Mais voltas. Pela primeira e única vez na minha vida sobre asas, vomitei. Não foi nada a la O Exorcista. Mas vômito é sempre desagradável e meio deprimente. Quarenta minutos orbitando Délhi e pousamos em segurança. A ansiedade me corroía. O aeroporto estava (mal) iluminado com geradores próprios e esperar na fila da imigração lembrava uma fila em um centro espírita, na penumbra, pra tomar um passe. Flores de plástico e pôsteres de papel enfeitavam as mesas e as paredes da sala dos guichês de imigração. Dezenas de imigrantes de países vizinhos eram tratados com desdém e até mesmo rispidez pelos agentes. Pobres, franzinos, frágeis. Possivelmente em busca de uma chance de trabalho. E eu só queria um abraço, um táxi e uma cama quente. O abraço, diga-se de passagem, seria da minha irmã... e não de um agente de imigração. O frio era intenso. O inverno estava em seu ápice. O corredor para a saída do aeroporto nunca foi tão longo, ermo e escuro... (anos depois eu voltaria à este mesmo aeroporto, já totalmente reformado e menos kitsch). O choque me esperava. Não o choque térmico. O choque de realidade. Um mar de rostos esquálidos, cobertos por panos, cobertores, mantas, observavam a chegada dos passageiros do vôo em que cheguei. Dezenas deles ofereciam táxi, moto, mototáxi, bicicleta, pogobol, patins, beijo, abraço, hotel, pensão, picolé, guia, rickshaw, disco voador, de um tudo. E te puxavam pelo braço. E desequilibravam seu caminhar tonto, tentando segurar a mochila, a mochilinha, o casaco, o que fosse possível. Eu só focava em achar um rosto familiar. Pedindo licença pra outras dezenas de pessoas que, estendidas no chão, buscavam abrigo do frio lá fora e pagavam uma taxa pra dormir no quentinho do saguão do aeroporto. Nada da minha irmã. O quadro de vôos continha dois tipos de mensagens pra todos os vôos: cancelled e diverted. Ou seja, cancelado e desviado. Fer-ro-u. Cadê ela? Já era muito mais que a hora combinada. Sim, eu estava atrasada. Mas... mas... mas... não era culpa minha. Não. Ela não estava lá. Ninguém pra me dar informação. Os seguranças só queriam perguntar de onde eu era e exclamar: Ronaldo!!! Ronaldo a puta-que-te-pariu! Camila! Camila! Minha irmãããã!!! Era primeiro de janeiro. O dia não clareava. O frio era de doer os ossinhos. Exaustão já me nocauteava. O cenário era estranhíssimo e assustador. Ninguém parecia se importar com meu choro e meu pedido de ajuda. Nenhum telefone funcionava devido ao apagão... onde estava Camila? Poderia tentar ligar pra Inglaterra, onde um amigo dela poderia me dar alguma informação... mas sem chance. Alguém acabou por me informar o óbvio. Eu estava em um aeroporto internacional. Ela chegaria de um destino doméstico. Então... talvez eu devesse ir pro aeroporto de vôos domésticos. Sim, ela poderia não ter se atentado pra isto. Talvez eu fosse mais esperta que ela. Hum? Não contavas com a minha astúcia, Camilinha? E pra lá me dirijo, depois de muita pergunta e correria pra tomar um ônibus seboso e capenga que fazia o trajeto entre os dois aeroportos. O fog era tão denso que parecia que segurava o ônibus pra trás. Eu estava drogada? Sonhando? Alucinando? O que era aquela cidade? Eu conseguia ver apenas trechos por detrás da neblina. Trânsito caótico. Gente atravessando na frente de tudo. Animais. Bicicletas, motos, risckshaws, pogobols, patins, palhaços, malabaristas, engole fogo, discos voadores... Eu não estava bem. Precisava dormir. Comer talvez. Chegando ao aeroporto, mais dúvidas. Perguntas sem respostas. Brasil-Ronaldo-puta-que-o-pariu. E choro. Minha ficha caiu que eu nem ao menos sabia de onde ela estava vindo! Parecia tão certo que ela ia me esperar. Fui parar na administração do aeroporto. Tentaram me ajudar, mas eu não tinha informação de nada. Nem eles, na verdade. Dezenas de voos foram cancelados... enfim. Nunca encontraria minha irmã. Jamais. Somente em outra encarnação. Decidi entrar em um táxi e ir pra um hotel. Que hotel, madam? Ahhh, qualquer um, meu filho. Eu não tenho guia, não tenho celular com internet (na verdade, ninguém ainda tem), não tenho informação, não tenho nem irmã... chuif chuif chuif. Me leva pro hotel do Ronaldo que tá bom, queridinho. E o rapaz me deixa em frente a um hotel com cheiro forte de curry e o barulho ensurdecedor de um gerador de energia bem
 na porta. Vinte dólares. O queeeeeeeeeeeee? Tá pensando que eu sou rica? Minha irmã não paga mais do que três ou quatro dólares pra dormir, segundo ela. Bom, já que ela não está e nunca estará... aceito. Subimos, subimos, subimos. Cheiro de cuuuuurrry nas escadas de mármore encardido. Abre-se a porta. Janela de frente pra rua. Ótimo, pois o barulho do gerador iria tirar a prova de que meu sono era absoluto. O rapaz balança a cabecinha, como os indianos fazem, como um não que samba e rebola. Espera a gorjeta. Sorri. Recebe a gorjeta. Balança a cabecinha. Vai embora. Eu deito de roupa e tudo. Cataploft! Janela escancarada pro frio porque já não sinto mais nada... Antes de pensar em tentar ligar novamente pra Inglaterra, dormi e morri. Acordei à noite. Desesperada. Onde estou? Quem sou? Quanto devo? Meu deus, preciso ligar pra Inglaterra urgentemente!!! Não sei quantos dias dormi. Se estou viva ou morta. Ou se o céu cheira a curry mesmo. Nunca pensei em ligar pro Brasil e perguntar aos meus pais porque não queria matá-los do coração. Mas não adianta pensar, quando sua irmã não pensa também... Eles já sabiam do "'meu sumiço"e estavam aflitíssimos. Meu pai já estava prestes a contactar a embaixada pra notificar meu sumiço. Da Inglaterra, nosso amigo Volkan pensou em me xingar, mas percebeu que era mais prático me avisar que minha irmã estava no número tal e era pra eu ligar urgentemente pois a polícia de Délhi estava avisada sobre meu desaparecimento. Mas eu estava lá o tempo todo! Minha irmã estava lívida quando atendeu o telefone! Choramos. Rimos. Choramos. Só. Tá bom assim. Mas rimos muito no final. Ela estava mesmo hospedada num muquifo de três dólares, sem café da manhã, mas com direito a ouvir em altíssimo som o programa Who Wants to be a Millionaire, que deu origem ao filme. E olha que ela não tinha tv no quarto. Mas sua vista privilegiada era um forro de madeira, cai-não-cai, com um ninho de ratinhos barulhentos como inquilinos. Nosso erro foi amador: eu chegaria às três da manhã e ela às três da tarde...
O tapescript da ligação está na caixa preta da cabeça da minha irmã, que narra, palavra por palavra, nossa conversa inspirada em 007: 
Ela, da Índia, em um telefone público devorador de moedas - Mana, fala rápido, quando é que você chega? A ligação tá péssima e tá ficando cara.
E eu, concisamente disse: - Dia tal, às três horas. 
Ela então, pergunta e confirma: - Dia tal, às três, em Délhi?
- Isso. Como é que você vai chegar lá? Avião, ônibus?
- Eu me viro. A gente se vê lá no aeroporto. Ciao!
- Ciao! 

8 comentários:

  1. Eu, que fui pego de surpresa, já estou esperando o próximo! eheheh bjos

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  2. Até que enfim, hein?! Um brinde!!!

    Estou te seguindo ;)

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  3. Parabéns pelo blog Andrea, gostei da história com sua irmã, espero que outras venham!

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  4. adorei!!!a gente le como se estivesse visualizando as "cenas"...qdo vira a proxima??espero q nao demore..bj

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  5. UHauhauhuhauhauhauhauha ai que delicia de blog

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  6. Olá Andréa, há quanto tempo! Me diverti muito com esse thriller cheirando a curry!
    Bjs!

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