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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Índia, te visito. Reloaded.

             Camila tinha estado em Goa. Estado indiano onde os portugueses haviam deixado seu legado expansionista, mas onde a língua portuguesa raramente é falada, a não ser por poucas pessoas de idade avançada. E em alguns escritos em portões de ferro, como: Família Almeida. Há um pequeno movimento jovem, nos dias atuais, que pretende manter viva a herança da língua, mas este é tímido e isolado. Mas ela não estava em Goa para praticar Português. The party girl queria curtir. Seus novos amigos viajantes, as festas sem fim, as praias. Por isto partir para encontrar a irmã causava-lhe sentimentos ambivalentes. A irmã, esta famigerada, inconveniente (eu, no caso) que não queria ir pra praia, não a via fazia um bom tempo, já que Camila morava em Brighton, na Inglaterra. Portanto, ver a irmã = feliz, deixar os amigos e a vida louca = triste. Pronto, explicada a ambivalência da personagem Camila. Ela saiu diretamente de uma rave de reveillon. Linda, louca e abalada. Teria pela frente uma viagem de ônibus de 15 horas até Bombaim, pra depois tomar um avião até Délhi e então, me encontrar. Ao chegar na rodoviária, ainda zonza da bebida e da falta de sono, descobre que seu lugar no ônibus havia sido vendido. Overbooking no sistema rodoviário indiano. O que se pode esperar de um país com tanta tanta tanta gente? Overbooking em tudo, né? Na fila da padaria, no banheiro, no parque de diversões. Tudo na Índia é over mesmo. Choro convulsivo. Eu preciso ir neste ônibus, preciso, preciso! Creio que tenho refazer a frase. Choro convulsivo e alguma histeria, imagino eu. Tenho um voo a tomar em Bombaim, minha irmã me espera em Délhi, as criancinhas famintas na África, o degelo das calotas polares, a extinção dos mamutes... ou seja, me coloquem neste ônibus, agooooooooooora.... Ela conseguiu. O motorista, tocado pelo seu desespero, ofereceu a caminha do segundo motorista, um pequeno nicho que fica ao lado do primeiro, próximo do câmbio. Minúsculo espaço impensável em qualquer país que preze a segurança dos passageiros. O segundo motorista consentiu. Não sei exatamente como se deram estes diálogos, porque até onde sei, nenhum dos dois motoristas falava inglês. O segundo motorista foi um mártir. Ele trocou sua caminha-nicho-sobre-o-painel por uma prateleira estreitíssima acima da cabeça do motorista, onde eles guardavam a própria bagagem. Sim, ele deu um jeito de caber. Acho que ele fazia bico de contorcionista. Mas Camila parecia uma ingrata. Só fazia chorar. Estava desgastada, triste, e sei lá mais que desculpa ela tem pra tanto chororô. Batman e Robin se desdobravam em agradá-la, pensando que ela se sentia mal por estar ali, exposta e fragilizada pelo assento improvisado. Creio que se o ônibus batesse, ela viraria um inseto esmagado contra o para-brisa. A dupla dinâmica comprava-lhe chá, flores frescas para colocar-lhe ao redor do pescoço, comidinhas, incenso... Serviço de primeira. Até que ela finalmente parou de chorar, horas depois. E chegou em Bombaim e tomou seu voo à Délhi e chegou em Délhi às três da tarde, e a minha metade da história foi contada na primeira crônica. Ou seja, eu havia chegado às três da manhã e já estava dormindo por exaustão em um hotel próximo ao aeroporto. Aqui um pout-pourri do que ela viveu: chega ao aeroporto, procura pela irmã, nada da irmã, espera, procura novamente, nada ainda, começa a se preocupar, busca informações, nada de informações, chora, chama atenção das pessoas, de onde você é?, Brasil, Ronaldo!, Ronaldo a puta que pariu, cadê minha irmã?, de um aeroporto a outro, ônibus capenga, nada de irmã, administração do aeroporto, a mesma mulher que ouviu meu choro, opa!, outra chorona esteve aqui na manhãzinha, buscando a irmã, cadê ela?, sei lá, caiu a ficha, 3 am / 3pm, ferrou, vou nessa, porque to com pressa. A maratona continua. Ela vai à um hospital próximo, não há estrangeiros aqui, darling. Vai à rodoviária. Chora, chama a atenção, sempre formando uma roda de curiosos, olha! uma estrangeira linda e branca chorando! Vamos até ela perguntar de onde ela é e falar o nome do primeiro jogador de futebol que a gente lembrar daquele país. Pede ajuda à polícia. Mas que empenho. Descansa um pouco, mana. Depois me procura, relaxa, estou dormindo em um hotel confortável, cheiro de curry, staff pensando que sou rica e balançando a cabecinha pras gorjetas. Mas ela é uma capricorniana obstinada. Não desiste. Um policial mal intencionado oferece ajuda. Diz que ela pagaria o táxi e ele iria a todos os lugares que ele pudesse pra coletar informações. Bom, se for assim, tudo bem, estou mesmo desesperada. Ele aproveita o táxi gratuito e começa a fazer visitas, em bairros distantes, visita amigos, parentes, credores, amantes... Algo como duas horas depois, ela o questiona. Ele responde que está tudo sobre controle. E que precisa coletar mais informações. Pobre irmã. Seu cérebro estava pasteurizado pela falta de sono, cansaço, estresse, medo, preocupação. Ela tenta conversar com o motorista que, contrariado, arrota duas ou três palavras em inglês: Bad man, your money. (Na verdade, quatro palavras em inglês). Vamos embora, ela decide. O policial volta, começa uma discussão intensa com o pobre taxista. Ainda impõe uma última carona. Livre dele, ela saca seu Lonely Planet e escolhe um hotel. Me leva aqui, por favor. Abatida, chega ao hotel-muquifo e liga pro Brasil, pra Inglaterra, pro CVV, pro programa da Márcia Goldschmidt. Horas depois, quando eu retorno das catacumbas e consigo o contato dela, o aguardado e já relatado telefonema acontece: mana? mana! mana? mana!, ri, chora, ri, chora. Ponto. Tarde da noite, decidimos nos encontrar somente na manhã seguinte, cedinho, no meu luxuoso hotel de vinte dólares (toda família tem uma pessoa rica... exceto a minha). Eu a aguardava ansiosa na frente do hotel. Vou de rickshaw,disse ela, aquela moto com cobertura e banquinho pra duas ou três pessoas na parte de trás. O trânsito intenso me deixava atordoada. Queria vê-la logo. Avisto um rickshaw se aproximando e diminuindo a velocidade. O dia estava ensolarado, porém gelado. Seria ela? Vejo um pé. Alías, dois. Reconheço-os. Os pés mais feios do mundo! (provavelmente serei processada após a publicação desta crônica, mas é pura licença poética). Conheço estes pés!!! Agora queimados de sol, e com as unhas mais pretas de sujeira indiana. Era ela! Desce soberana enrolada em mil cangas. O frio a pegara de surpresa. Somente a improvisação a salvaria. Cangas e mais cangas enroladas pelo corpo, cabeça, mas os pés de fora, denunciavam sua longa estadia na praia. Olhei bem para ela. Tudo o que eu conseguia ver eram seus olhos azuis iluminados e cinquenta tons de marrom na sua pele! O que era aquilo, meu deus? Sujeira, sol, poeira, experiência, vida! Depois do susto, um café da manhã improvisado num trailer ali ao lado, comemos uma samosa apimentada e eu tive que engolir umas duas cocas-cola pra aliviar meu paladar afogueado. Minha irmã não me poupou na minha primeira experiência gastronômica. Às oito da manhã, na poluição e improviso da rua. Acho que foi uma espécie de vingançazinha. Um prato que se come... apimentado. Seguimos dali pra Jaipur. Mas isto já e outra crônica. 

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