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sábado, 8 de fevereiro de 2014

Da luz e dos estados (de espírito - excluído o de porco).

         Visitar um lugar é fácil, basta estar lá. De corpo presente, câmeras empunhadas, aplicativos de celulares baixados e abertos. Talvez ainda um mapa e um guia nas mãos, para os mais old school. Mas creio que para conhecer um lugar, é preciso vê-lo sob várias luzes. E estados de espírito. A mesma estrada ao nascer do sol quase em nada se assemelha a ela mesma, ao meio-dia. As sombras suaves da manhã reforçam a chegada sedutora do astro egocêntrico, enquanto o meio-dia expõe com crueza as imperfeições de cada centímetro do asfalto, das plantas, do entorno. A mesma paisagem muda ao longo do dia. A luz do sol e suas intensidades graduais revelam ângulos, escondem texturas, enfatizam contornos, evidenciam contrastes. Nunca me esqueço minha surpresa ao ver as fotos de uma francesa, de um mesmo parque que visitamos em Pequim. Ela estivera lá em um dia de chuva abundante. Suas fotos dos templos e das construções do parque - semelhantes ao nossos coretos de praças mas com os telhados típicos orientais - deixavam entrever a vegetação exuberante e a vivacidade das cores pelas cortinas que a chuva formava na beira dos telhados ao cair. Não parecia o mesmo parque. O meu registro certamente foi muito mais pobre e objetivo, embora, em tese, um dia de sol supere um dia de chuva. Assim como a luz, os humores plasmam nossas emoções e direcionam nossa percepção do exterior. Uma paisagem estonteante, ao fim de um longo dia de caminhada, doloridos, famintos, exauridos...não causa o mesmo impacto do que no auge da nossa disposição. Existem tantas torres Eiffel e muralhas da China quanto estados de espírito. Uma praia Tailandesa não pode ser tão bela pra quem levou um fora, não? Ou sua beleza tem tons mais acinzentados. Assim foi comigo em Pyingao, pequena cidade Chinesa da dinastia Han, extremamente bem preservada por mais de cinco séculos e onde o sistema bancário começou a tomar forma. Minha tpm estava torturante. Eu estava na China há uns dez dias. Tinha largado meu emprego, minha casa, família e amigos pra mochilar pela Ásia. Eu olhava as primeiras formas de dinheiro e pensava, um lixo. Passeava pelas ruas pitorescas de Pyingao e falava, um nojo. Pensava no quão idiota eu era por ter largado tudo pra estar sozinha a milhões de kilometros de distância. Nada me agradava. Meu azedume era universal. Uma mulher de tpm não vale a passagem que compra. Não vale o dólar que troca. Deveria ser proíbida de sair de casa, e se sair, deve ficar presa na sala de interrogação do aeroporto. Até melhorar! A cidade seguinte voltou a ter sabor de aventura, cheiro de liberdade. A tpm ficou na estação anterior...


Em algum parque de Pequim.



Estado de espírito: beirando o de porco.

Um comentário:

  1. Hilário! 'Uma mulher de tpm não vale a passagem que compra'! Estava com saudade desse seu bom humor. Dia desses lembramos de você na hora do intervalo das turmas de sexta-feira e de como ríamos e ríamos. Dessa forma, te apresentamos aos novos colegas. Você faz a maior falta! Vem nos visitar quando puder!

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