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quinta-feira, 24 de junho de 2021

Monja, Foco e Fé.




 Esta história remonta tempos imemoriais, paleolíticos, desde minha primeira decepção amorosa, broken heart, fora, fossa romântica, coração partido... Nestes momentos fatídicos, eu passava por todas as fases conhecidas e definidas pela psicologia da sofrência e do luto... Negação e isolamento. Raiva.  Barganha. Depressão e Aceitação, se as deusas assim consentissem. No entanto, RAU-É-VAR...eu sempre passava por um estágio muito peculiar, o do desejo de me isolar em um mosteiro qualquer, templo, sinagoga, castelo de greiskull, o que você conseguir nomear de coisa isolada e abnegada, serve. Eu pensava que o amor não era pra mim, que era melhor eu me dedicar exclusivamente à minha vida espiritual, me isolar, que o mundo não me merecia, que eu era too good to be ordinary. Hahahaha. O tempo passou e minha visão do amor também mudou um pouco. Ligeiramente. Pois se eu fosse querer me isolar agora, seria em um hotel boutique, com uma boa adega,  biblioteca, room service, pontos pra trocar por bugiganga, cozinha afetiva (não sei o que significa, mas todo mundo hoje se auto denomina algo afetivo, tem que ter isto pra ser cool, não se esqueça, por favor). Então, mudei, mas continuo a mesma. Também tenho vontade de me isolar, às vezes, ainda, quando me decepciono, mas não muito, menos decepção, menos isolamento, mais longe do Tibete,  mais perto da boutique, pontos por quilômetros de vantagens, menos meditação, mais vinho, fodam-se as deusas, streaming faz esquecer. Porém quando tive a oportunidade de provar, menu degustação, uma pitada de afeto e outra de solidão, ser monja sem o hábito, Claudinho sem Bochecha, eu me joguei. Nem tanto, pois passei meses percorrendo países no meu mochilão kamikaze pela Ásia, coletando informações sobre como seria esta experiência, tentando saber qual era o gosto do quiabo sem comer o quiabo, com baba, sem baba, com frango é tudo, nem é tão bom assim, sequinho é uma delícia e ainda assim decidir se comeria ou não comeria. O quiabo não. A experiência monja pocket, 11 days, Samara garantia estendida, Tailândia, vou-não-vou, quero mas tenho medo, por que não, mas pra que também? E a cada relato, sobre a experiência monja-pocket, eu mudava de ideia. É foda demais. Então não vou. É libertador. Então eu vou. Você quer morrer e não pode nem falar por 11 dias. Não vou mais. Ahhh, mas é uma experiência necessária pro real conhecer-se. Ahhh, por que não me disse antes, eu vou! E neste ping-pong Maria-não-vai-com-as-outras eu decidi ir até o norte da Tailândia, precisamente em Chiang Mai, passar pelo Wat, bater um papo com monjessess e monjeless e sentir o clima, e ver se minha intuição apitaria algo, né, tipo, vai cacete, faz logo essa porra, que saco, são somente 11 dias e não dá nada. A primeira cena que avistei ao chegar de Tuk-Tuk no templo, que ficava um bocado fora da cidade, foi a de um cidadão, cabelos brancos no ombro, sem ver pente há dias, vestido de branco dos pés à cabeça, literalmente, andando como se estivesse em câmera lenta, muito lenta, lentíssima, com as mãos entrelaçadas para trás. Analisando cada micro movimento de seus pés, como se eles fossem o parto de um dinossauro tirado da extinção pela engenharia genética. Pensei, que porra é essaaaa? Bem inspirada pelo meu lado espiritualista-preguiçoso-nihilista-debochado. Passei pela recepção. Encontrei uma monja que falava. Pelo menos com os turistas que queriam informações. Este templo é referência entre os estrangeiros que querem passar pela experiência Vipassana na Tailândia. São didáticos, organizados, tem pessoal que já está acostumado a ensinar o basicão pra leigos, já conhecem os nossos erros comuns, mancadas interculturais, problemas de coluna, hemorroidas, tagarelice, falta de foco, respeito, ou seja, já conhecem a putaria ocidental toda e tudo o que atrapalha o retiro e a retidão proposta. A monja me mostrou os vários prédios do wat, acomodações, falou o que eu precisaria levar, o dia que começaria, a rotina básica, minúcias e me deu um papel com as mesmas informações. 

Eu venho, pensei. É, eu venho sim. Não aguento mais turismo, turista, comida de restaurante, trem, ônibus, hostel, papo de mochileiro, wat, Buda de ouro, Buda de barro, Buda gigante, barulho, poluição, esquema pra arrancar grana de turista. Ihhhhhhh já deu. Vou fazer este retiro de uma vez por todas. Ver minhas aptidões para a disciplina, fazer votos pra mais uns meses e mudar de vida. Hahahaha. Voltei para a cidade, passei o fim de semana tranquila, sem expectativas maiores, deixei o excesso de bagagem no albergue mesmo. Comprei as 11 velas, 11 incensos, 11 flor-de-lótus, roupa branca, o que precisava. Cheguei antes da hora no dia marcado. Fui pra sala indicada. Monja simpática vai ensinar o básico da meditação andando. Olha pro pé, e pensa: querendo me mover, querendo me mover, querendo me mover. Daí levanta o pé devagarzinho, subindo, subindo, subindo. Daí vai vendo. Move o pé adiante, e pensa: movendo, movendo, movendo. Ah, mas lembrei que ontem eu comi manga. Então pensa: lembrando, lembrando, lembrando. E o pé? Ah, nesta hora não se mova. Só pense. Hummmm. Sei. Daí vai descer o pé? Descendo, descendo, descendo. Olha, que mágico. E se eu estiver preocupada com o que vou comer amanhã? Daí pensa: planejando, planejando, planejando. E não se mova. Olha, que interessante. E não se mova enquanto isto. Beleza. Por 15 minutos. Depois vocês se sentam e meditem por 15 minutos. Daí passam pra 20 de cada. Intercalando. E aumentam pra 25 de cada. Veio-me o maluco em mente. O grisalho despenteado que parecia um mané fazendo coreografia em manicômio. Esse mané agora seria eu. 

E as regras gerais? Fácil. Não falar. Nada. Com ninguém. A não ser que seja ultra necessário. Daí você fala o mínimo. Mas não será necessário. Sei. Não comer nada depois do meio-dia. Só pode beber. Até o dia seguinte, às 6h30 da manhã. Ok. Não ler. Não escrever. Não usar nenhum celular, computador, não ouvir música. Não matar. Nada. Nada. Nada mesmo. Pensei que essa seria a regra mais fácil. Mas depois descobri que não foi. Meditar, meditar, meditar. Andando e sentado. Andando e sentado. Andando e sentado. Começando com 5 horas por dia. Aumentando uma a cada dia. Mas gente, isso é fácil demais. Por que eu não vim antes? Contém dose cavalar de ironia. Hoje em dia a gente precisa sinalizar isto. E que a coisa tem afeto, também precisa sinalizar. Tempos modernos, gente. 

To pronta, pensei. Vamos lá. Foco. Disciplina. Nunca foi tão fácil ser monja. To dentro. Sentá la, levanta, anda, olha o pé, para o pé, pensa na briga da 5a série, toma consciência que lembrou do passado, pára o pé, desce o pé, senta no duro, medita caralho. Monja, foco e fé. 

Bem, então tá valendo. Vou pro quarto espartano. Uma cama de solteiro e uma mesa de escola velhinha. Mochila no chão. Coisas mundanas ficam guardadas. Tinha um edredom pois era inverno. Mas não tinha colchão. Então você escolhe, cobrir ou deitar no macio e passar frio? Não reclame, princesa, você veio aqui pra treinar sua mente, e não seu dragão. O frio na Tailândia pode ser como no Brasil, em algumas regiões. Tem sol de dia. Mas a água continua gelada. E de noite tem que se cobrir, aquecer. O banheiro era mínimo, mas era só meu. O chuveiro era frio, mas eu poderia tomar banho ao meio-dia, com sol mais quente. Boa vontade, meus irmãos. Vamos que vamos, porque tem muita hemorroida pra pipocar em 11 dias de bunda no chão e pernas dobradas. 

Rotina leve. Acorda com o gongo às 4 da manhã. Lava o rosto na aguinha gelada. Medita no quarto. Tá escuro lá fora. A galera da cozinha já meditou e tá lá cozinhando o café da manhã. Vegano. Que consistia em sopa de arroz e legumes e chá. Eu nunca conseguia levantar com o gongo e já colocava a soneca pra hora do café da manhã, porque aqui a lei da sobrevivência é forte. Seis da manhã, vai pra cozinha, senta nas perninhas, pega um folheto com os mantras e os cânticos, em letras do nosso alfabeto, sem tradução, mas com os sons. Canta, caraio. Senão não come, hein, moleque. Canta, canta, quero comer, canta mais, to com fome, canta, canta, limpa esse karma, sua imunda. Pronto. Fome matada. Saia de mansinho, encontre seu cantinho e ... medite, querida. Em pé, sentada, em pé, sentada. Mais uma vez. Às onze tem almocinho, mas só se você meditar, sem vergonha. Nem sempre eu conseguia. Eu queria andar pelo templo, ver os monges limpando as folhas do chão com suas vassouras imensas, ver as pessoas sentadas com suas caras plácidas, gente comum, que ia passar o dia pra meditar, falar com monjas e monges, e os moradores de lá, nos seus afazeres, rapa a cabeça da irmã com a lâmina, não quis ser monja? Agora, aguenta. Cada um nas suas funções e eu procrastinando. Eu meditava uma hora e minha mente já tinha energia pra dois dias. Eu não sabia o que fazer com tanta energia. E quanto mais energia, mais difícil era meditar. Daí eu não queria dormir também. Porque minha mente estava a mil. Cheia de ideias, insights, fervilhando, borbulhando, querendo criar, falar, ler, usar o intelecto. Mente dando nó na gente, ego querendo mostrar que tava ali, maroto. Criança rebelde querendo arrumar encrenca. Enquanto isto, o corpo doía e sentia as posições novas. Poderia ser do Kama Sutra, mas não. Eram mesmo das meditações andando e sentada. Dor física. Fome. Energia demais. Mente tagarela. Frio. E ainda tinha que dar satisfação pro monge mor, todos os dias, às 17. Na sala dele. Isto me deixava maluca. Primeiro porque era o mais próxima de religião que eu chegava, e ainda assim porque não havia como dissociar, no caso, o curso, a experiência Vipassana, das práticas religiosas deles. Depois porque era um templo. Com seus rituais, suas hierarquias, regras, e isto tudo era muito complicado pra mim. Senta na antessala. Espera os outros gringos falarem com monjão. Entra de joelhos. Vai até ele. Senta na bundinha. Nada de apontar o pé pro Buda que está atrás do monge. Uma heresia. Fica aí nesta posição. Aguenta, viado. Ah, e então? Meditou. Sim, monge. Quantas horas/ 5, 6, 7, 8? Cumpriu a tarefa? Sim, monge. Ganha um sache de cappuccino. Tá de parabéns. Eu nunca ganhava nada. Não conseguia passar das 6 horas. Me sentia um lixo ahahaha, hoje dou risada. Eu nunca meditava mais que meia hora na vida. Queria chegar lá, começar com 5. Aumentar uma hora por dia. Assim, como quem come uma banana a mais por dia. De buenas? Sim, queria. Mas meu corpo não aguentava. Eu me rebelava, sei lá qual parte minha. Era pura rebeldia. Queria sair gritando de noite, no silêncio do mosteiro. Pelada, se conseguisse. Queria matar as formigas que se enfileiravam no meu banheiro na hora do meu banho e me faziam encolher na quina, apertada, pra água não chegar nelas. Uma chacina naquelas formigas, era o que eu queria promover. Matar os pernilongos malditos que sobreviviam ao frio. Xingar a monja do mercadinho que implicava comigo toda vez que eu ia comprar algo, mesmo que fosse pra manhã seguinte, dizendo que eu não podia comprar biscoito, porque depois do meio dia não poderia comer nada. EU SEEEEIIIIIIIIII, MONJAAAAA. EU SEI SUA CARAIA DUMA MONJA, TO MAIS CARECA QUE VOCÊ DE SABER, SUA IMBECIL, MAS EU QUERO COMPRAR HOJE, PORQUE AMANHÃ VOCÊ PODE NÃO QUERER ABRIR ESSA BUÇANGA DE MANHÃ, COMO JÁ ACONTECEU E ME DEIXAR SEM BOLACHA RECHEADA DE GORDURA HIDROGENADA DE MANHÃ DE NOVO. Tendeu? Ela teve a pachorra de não me deixar comprar um yogurte de morango uma vez. Só porque tinha pedaços de morango. Sim. Sim. Sim. Verdade mesmo. Pra que você se digna a virar monja pra ser tão mesquinha, hein? Ficar careca e usar essas roupitchas laranjas com magenta não funcionam isoladamente, viu? Monja da peste. Ela disse que se tinha pe-da-ços de morango, mesmo que despedaçados, olha a hipocrisia, eu teria que mas-ti-gar e então eu estaria quebrando uma regra do retiro. EU ENGULO TUDO SEM MASTIGAR ENTÃO, MON AMOUUUUUURRRRR. Não pode, ela disse. E as más línguas dirão que estou sendo gordofóbica, mas ela era cheinha. E como alguém que não come das 12 às 6h30 da manhã seguinte, fica fofa? Foda-se. Falei. Suspeitas, eu tinha. Ela merece uma crônica toda, todinha, essa rapariga. Mas como dizia a minha amada vó Leontina, deixa o dedo que a unha vem, monja. 

Segui assim. Contando as horas, como Kid Abelha, negociando comigo mesma, driblando a fome da madrugada com suquinhos e iogurtes sem morangos em pedaços, discordando de mim mesma se eu usaria o edredom de colhão ou de cobertor, pensando em mentir pro monge mestre dos magos se eu tinha atingido o número de horas de meditação prescritas pra ganhar o sachê de cappuccino. Ou até mentindo que atingi o nirvana pra ganhar uma máquina da Nespresso, quem sabe este monge não cairia durão lá de susto e eu assumiria o trono, "A menina monja que destronou o monjão com seu nirvana, em 5 lições sem mestre".  Filme mais pop que As 7 Faces do Dr. Lao, clássico da minha infância na Sessão da Tarde. Não conversei com ninguém, e achei isto um livramento. Não matei, até onde sei. Não li, nem escrevi, nem comi fora da hora permitida. Sim, eu desejei o mal. Não posso dizer a quem. Mas vocês sabem. Ainda tem uma persona non grata que está neste roteiro, e que foi deixada de lado desta vez. Era a ajudante de Papai Noel. Uma monja alemã, carreirista, ahahaha, que era a secretária de carteira não assinada do monjão (este por sua vez era um doce, diga-se de passagem pra não desfazer minha fama de má). Essa monja era mais poderosa que secretária de médico. Do tipo que se apodera do posto e usa e abusa pra poder satisfazer seus delírios de grandeza. Ela conseguia tornar o momento da conversa com o monjão um momento corporativo. Uma competição consigo mesma. Uma ambição capitalista pra te fazer querer meditar mais que o coleguinha na sala de espera. Uma víbora. Hahaha. 

Se o saldo foi positivo? Como não? Olha que delícia de crônica relatada aqui. Quanta ironia, risadas, memórias afetivas, (será?), expansões da mente, do espírito, da porra toda. Eu refleti sim, sobre esta experiência, muitas vezes. Aprendi muito sobre mim, creiam-me. De uma maneira menos ortodoxa que o retiro previa, talvez, ou que as pessoas gostam de dizer que aprenderam. Aprendi da minha maneira. Do meu jeito mesmo. Que já tá ótimo. Hoje sei que faria de novo. Com outras expectativas, sou outra pessoa, com outra perspectiva de uma busca espiritual. 

Uma coisa eu tenho absoluta certeza: não quero ser monja. Nunca quis. Era só meu ego ferido querendo fugir da dor de um fora, ou uma decepção amorosa. Quero ser eu mesma. Mais amável, mais amada. Ou só mesmo do jeitinho que sou. Mas se não fosse minha imagem romantizada da vida monástica, como eu poderia ter ido parar no norte da Tailândia pra brigar com uma monja por pedaços de morango no iogurte? 


terça-feira, 30 de junho de 2020

Foto e Poema de uma Jagunça pequena. Ficção nada científica. Releitura de uma Maria Bonita João

 

Este pequeno poema nasceu de um ensaio de fotos vestida de jagunça, uma brincadeira que eu e uma amiga amada (Bárbara Nunes) fazemos quando temos a felicidade de nos encontrarmos em Barra Grande, litoral do Piauí, como já discorrido em crônicas anteriores.
Durante as fotos, sem querer, me furei em um espinho de cactos. A expressão no rosto é genuína. E como fantasiamos que íamos fazer um filme baseado nas fotos, deixamos o story board brotar em mídias distintas.



In motion... 
A foto vai aparecendo na telona como um recorte de jornal velho e amassado.
Depois de terminado o poema, aparece na foto o carimbo em vermelho de "Procurada". Som de tensão e suspense.
Corta. 


"Jagunça guerreira
Se joga da ribanceira
Abre rasgo com a peixeira
Mata homi de primeira
No entanto, não se engane
Colonia de Pacco Rabane
Não usa pra não espantá
As pretendente formosa
Que gosta de muié cheroza
Com perfume de mungunzá
Não se sabe o que ôve
Um dia assim à noitinha
Um gemido de galinha
Que tá prestes a morrê
A jagunça bem certeira
Arriô as carça ligeira
Pra aliviá a bixiga
sentô sem nem olhá
E furô o furiquinho
Sem sabê que o matinho
No escuro não se via
Era tudo de espinho
Fez cara de morte súbita
E nas perna se borrô
Com rima termina o verso
Que fedeu mais que cocô"

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Barra Grande - Aurículas e Ventrículos, Sangue e Água Salgada

Naquele pedacinho de terra ali, ao longo do mar, entre o Delta do Parnaíba e o mangue que separa Cajueiro da Praia, do Ceará... aquele trecho de areia grossa, alta, irregular...aquela costurazinha de nada, em que as linhas das pipas dos kites se embaraçam com as linhas das redes dos pescadores. Ali onde o vento é o propulsor do movimento, o que alegra na presença e o que causa caras amarradas e inquietude na ausência... É bem ali. Bem ali, olhe lá. Cuscuz um pouco seco pro meu gosto, pão de massa fina, beju, café pra deixar a gente gelado de tanto suar. Entre estradazinhas de piçarra, entre pés de chinelas largados, cães dormindo no meio da rua, jumentos em bandos, jumentos solitários, jumentinhos e suas mãezinhas zelosas, jumentos disparados correndo no nada pra lugar algum. Entre árvores de ciúme, cactos alquebrados, vacas comendo lixo. Entre cajueiros frondosos, com os dias contados, até a próxima construção lhes ceifar. Entre grupos de estrangeiros, caminhando relaxados pelo meio das ruelas, com os corpos queimados de sol, os músculos doídos de tanto velejar. Através da praça cimentada que reflete o calor e dá rumo aos perdidos. A igrejinha de linhas retas, branca e azul, contra a cruz branca no chão. Um toque interiorano em meio a um entorno que ganha ares de comércios apressados. Cultos estridentes, que transformam todos em crentes, divididos em dois grupos bem distintos, de essências opostas . Pedem, a um Jesus um tanto surdo, alívio para as aflições cotidianas e livramento. O pecado, este tal pecado. Igual no mundo todo, mas ainda setorizado por burocracias. Ali naquela praia. Onde ônibus despejam turistas aglutinados em grupos homogêneos. Caixa de som no ombro, caixa térmica, sacolas, apetrechos pra desfrutar do dia de sol. A farofa é patrimônio nacional. Praia sem farofa, domingo sem macarronada. Vai na contramão dos hábitos brasileiros mais democráticos. É mesmo ali, entre rajadas de vento e areia, entre sargaço, vazantes quilométricas, rostos conhecidos de estranhos, amigos cumprindo seu  ritual rotineiro de passeios com seus cachorros, caminhadas solitárias, silêncios interrompidos por prosa boba e boa, meditações que não veem seu fim, porque alguém chegou sem avisar, e logo sugere uma cerveja. É neste pontinho minúsculo dos 7 mil e tantos quilômetros de litoral brasileiro, que meu coração se põe com o sol, pra renascer de imediato nas estrelas, planetas e satélites, assim que a escuridão tão lindamente os revela. 

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Bem-vindos à GYN land.

      Foi então que uma bela tarde de janeiro eu aceitei uma oferta de trabalho e uma semana depois eu me mudei para Goiânia. Sigla GYN. Sugestiva para os beberrões e prática para procurar vôos pra casa. Mudança ainda mais repentina quanto foi a minha pra Barra Grande, Piauí. 
      Pois então logo apareceram as primeiras impressões, aquelas que nos marcam pra sempre, que se encaixam numa míriade de categorias que passam por injustas, distorcidas, realistas, subjetivas etc etc etc...
      A primeira delas foi a minha surpresa - pode escrever choque - ao notar a frota de carros da cidade. Am I in freaking Berverly Hills? Além do número de veículos que inundam as avenidas extensas, a impressão que tenho é de estar na cidade mais rica do país... ou mais endividada nos bancos de leasing. Sinto-me no carro dos Flinstons dirigindo meu carrinho popular, 1.0, em meio à multidão de reluzentes possantes. Mas logo percebi que o carro, este obscuro objeto do desejo, é o calcanhar de Aquiles do Goiano. Sempre que falo da minha tão querida primeira impressão, as pessoas me olham assim... com uma desconfiança do tipo, "que menina esquisita. Até parece que não quer dirigir nosso carro. Até parece que não deseja ardentemente uma mercedes crocante pra dirigir. Até parece que não quer este símbolo tão evidente do status pra ganhar 5 estrelinhas no app da vida." Inútil seria dizer que não... Então, não digo nada e sigo guardando minha primeira impressão pra mim. Como se pode notar nesta crônica, em que nem a mencionei. 
      Outra coisa que os Goianos levam muito, mas muito a sério: sanduíches. Não me venha com amadorismo. Aqui a coisa é profissa. Pela quantidade de lanchonetes que existem, penso que eles realmente amam sandubas. Conversando com uns alunos, comentei que vi dezenas e dezenas de "carrinhos de lanche" e "trailers de lanche". Eles quase me mataram. Nãaaoooo, não são nem carrinhos, nem trailers, está doida? São pit dogs, outro nível. Ahhhhh, sim. Dos sanduíches não posso dizer, porque não como carne e não experimentei nenhum. Mas o local... os pit dogs... são... assim, trailers! Só que com uma infra que lhes confere o status de pit dog. Certo? Vamos deixar isto combinado, então. Existe um "puxadinho" pra colocar mesas e cadeiras, e o trailer ganha uma decô maix moderrrrninha. E há muitos deles. Todos cheios à noite. Mas o mais curioso é que parece que o goiano não estaria aproveitando este filão de mercado na sua plenitude se ele abrisse apenas uma sorveteria. Então ele coloca lá: Sorveteria E Lanchonete. E por que ser apenas uma pastelaria se posso ser uma Pastelaria E Lanchonete? Não vou perder a confiança do povo Goiano se eu abrir apenas uma mecânica? Sim, claro que vou. Então eu abro uma Mecânica E Sanduicheria. Agora sim, plano de negócio completo. Já fico imaginando que há muitos profissionais liberais que temem perder a credibilidade se colocarem apenas: Dra. Xanaína Marques. Ginecologia e Obstetrícia. Então ela se vê obrigada a colocar? E Lanchonete. Há, certamente, J & J . Advogados Associados E Lanchonete. Porque não adianta ser goiano, tem que respeitar a cultura local. 
      Eu mesma tive a inspiração, estes dias, de um negócio próprio. Estava indo à pé a uma conveniência perto de casa. Passando em frente a uma casa vizinha, ouço um gemido de um homem. Era quase sexual. Mas não exatamente. Ele continuava, sem parar. Parecia estar no quintal / varanda da casa. Fiquei morrendo de curiosidade. Pensei, vou espiar na fresta do portão. Olhei. E o que vi me deu um estalo empreendedor. O cara, já um senhor com idade pra ser aposentado (no Brasil, isso significa com quase 120 anos), estava sentado no corredor ao lado da casa dele, numa cadeira velha, usando um cotonete. Ele estava gostando tanto da coisa, que gemia, gemia e usava o cotonete, como se fosse um pecado capital. E é! Se formos ver a quantidade de contra-indicações por usar um reles cotonete. Esses vídeos horrorosos que são postados na internet, mostrando o que acontece quando você limpa o ouvido com um cotonete... que horror! Eu simplesmente não quero sabeeer! Eu e aquele senhor e metade da população do Brasil queremos usar o cotonete sem informação alguma. Queremos socar o cotonete beeem dentro do ouvido e sim, ter aquele prazer culpado de socar a cera mais pra dentro e correr sim o risco de inflamar, infeccionar, perfurar o tímpano, porque o ouvido é nosso e a gente faz com ele o que bem entender. Eu entendi na hora o prazer do senhor velho aposentado sentado no corredor do lado de fora da casa usando o cotonete como se fosse algo proibido. E decidi que, quando tiver o capital todo, vou abrir uma COTONETERIA. Um local onde você pode ir, com toda a privacidade de quem precisa extravasar um desejo quase secreto, e usar o cotonete avançando quantos milímetros você bem entender pra dentro do seu ouvido, atravessando o tímpano, desestruturando o martelo, a bigorna e o estribo, atingindo a cóclea, o trópico de câncer e o de capricórnio e ainda gemendo o quanto você bem entender. Sem mulher / marido / filho / pai / mãe / sogra e nem ninguém pra gritar: "Você não pode usar o cotonete deste jeito que vai acabar ficando surdooo!!!". Minha cotoneteria vai contar com cadeiras confortáveis, estilo chaise long, camas, pufes, redes, banquinhos, sofás, e toda a parafernália pro cliente desfrutar de momentos relaxantes, música ambiente, drinques e chás e o escambau. Claro, haverá sempre um otorrinonaringologista de plantão, de cara amarrada, contrariado, para avaliar possíveis danos às estruturas delicadas do nosso amado ouvido. Mas ele estará proibido de emitir qualquer tipo de represália quanto ao uso que o cliente quiser fazer do cotonete. E também a COTONETERIA só vai trabalhar com cotonetes da Johnson. Nada daquelas outras marcas mequetrefes em que o algodão se desfaz e não é acolchoado o suficiente pra causar o prazer desejado. Pelo contrário! O algodão sai e a haste (nada flexível) espeta você e as luzes se acendem, e você volta do êxtase como que tivesse levado um choque. No entanto, e aqui é que está a conclusão do meu plano de negócios... um pouco divagante, mas bem pautada em anos de experiência e muita pesquisa de mercado... a COTONETERIA, por ser inaugurada em Goiânia, terá que ter um importante anexo. Justamente para não perder a confiança do cliente mais raíz, contará com uma ... sim, LANCHONETE. Fazendo assim, história na cidade e no país! A primeira COTONETERIA E LANCHONETE do Brasil. 
     Fico contente de poder compartilhar meus planos, embora este não fosse o objetivo principal da crônica, foi este rumo que ela tomou. Goiânia não sairá daqui, e pelo visto, eu tampouco. Ainda dá tempo pra muita prosa sobre cidade berço de muitas celebridades da música sertaneja e do empadão mais mortífero pra uma vegetariana como eu. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Viajantes: Personagens da Vida Real Reloaded


Continuando com as pessoas fantásticas que encontrei pelos caminhos errantes ao longo de estradas e países. Às vezes, em viagens longas, faz bem abandonar o livro que ajuda a matar o tédio entre longas distâncias, para ler as pessoas (no caso, hoje em dia, abandonar o smartphone que não nos deixa levantar os olhos). Pessoas são infinitamente mais originais que qualquer exercício de imaginação. Universos ambulantes que mal podemos suspeitar. Aqui apresento-lhes minha breve experiência com dois deles. 

Felicítas. Advogada argentina de 20 e tantos anos. Em Assilah, cidade litorânea do Marrocos. 

Esta mulher com jeito e cara de menina, estava hospedada em um albergue cujo dono, Tarek, artista marroquino falante de espanhol, ficara amigo da minha irmã, Camila. Ela havia comentado que na noite anterior, numa festinha no albergue que eu não quis ir, havia chegado esta menina, Felicítas, toda perdida e engraçada. Sem saber direito o que estava fazendo ali. O nome dela, segundo a própria, tem que ser pronunciado como se conjuga o verbo felicitar. Eu felicito, tu FELICÍTAS. Assim, está certo. Muito bem. Na noite seguinte. saímos pra jantar e lá estavam algumas pessoas hospedadas no albergue. Tarek, o dono, que para mim parecia muito o ex-presidente argetino Carlos Menem. Ele, em si, um personagem curioso. Tinha grossas costeletas e o rosto bem definido e quadrado, queimado de sol. Parenteses sobre como o conhecemos. Estávamos andando pela parte antiga da cidade de Assilah, belo dia de sol quando voltei alguns metros para refazer uma foto. Quando olho adiante, Tarek, que surgiu praticamente da 5a dimensão, pois não o vimos, já havia fisgado minha irmã pra conversar. Pensei, puxa, em 2 minutos que me desligo já cai um perdido nos encantos da sereia. Mas o estranho é que ele parecia muito ser gay. Vestia um shortinho listrado de branco e preto de malha!!! pasmei. De malha? Curto? Meio enfiado na bunda. Ah, me poupe. hahaha e tinha o cabelo preso num rabo de cavalo e as costeletas emoldurando o rosto. Pra mim era uma versão gay do Menem. Mas ele não era gay. Apenas parecido com o ex-presidente. Voltando ao jantar. A língua falada ali era espanhol. Eu era a única que não era fluente, o que me fazia parecer meio tonta, tentando articular lentamente o que queria dizer enquanto todos pareciam metralhadoras falando com vários sotaques distintos. Pois foi assim que comecei a falar com FE-LI-CÍ-TAS. Ela começou me dizendo que tinha perdido o avião de volta pra Espanha, de propósito. E que o namorado dela, brasileiro, estava um bocado bravo, pois eles haviam combinado de viajar juntos, passar uns poucos meses na Espanha. Ela estava em um ano sabático do escritório que ela trabalhava em Buenos Aires. Já ele era dono de um albergue em Salvador, Bahia. Durante a viagem pela Espanha ela decidiu que iria dar um pulo no Marrocos. E foi, decidida e empoderada. Ele ficou esperando. Mas ficou mesmo puto da vida quando ela perdeu o avião. De propósito. E estava lá, com aquela cara de perdida, mas de feliz. Meio arrependida, meio marota. E foi quando eu me lembrei que ela era argentina e que poderia se lembrar do Menem (que beijou a Xuxa na época, se não me engano), garanhão e com as costeletas como marca registrada. Eu lhe perguntei, você deve se lembrar do Menem, não? Seu ex-presidente. Ela fez uma cara de susto e colocou uma mão na teta, esquerda, a propósito, mas isto eu não reparei na hora. Eu continuei, inadvertidamente. Pois então, lembra ou não? E ela, meio a contragosto, disse que sim. Eu continuei, olha o Tarek. Ele não lembra o Menem? Cara feia de novo e mão na teta esquerda de novo. E eu nem percebendo nada. Insisti e ela dispara: olha, não é legal ficar falando do Menem. Traz má sorte. Ninguém na Argentina gosta de falar o nome dele, e se você falar, melhor colocar a mão no seio esquerdo pra evitar a má sorte. E eu, incrédula, comecei a gargalhar. Não podia acreditar. Por quê? Coitado do Menem, eu disse. Cara feia e mão na teta esquerda. Neste momento eu aderi. Porque queria continuar explorando o assunto e não podia crer que uma advogada, inteligente, viajada e esclarecida era tão supersticiosa. Então eu chamei o outro argentino da mesa e contei a história pra ver se ele confirmava. Já nesta hora eu colocava a mão na teta esquerda junto com ela (calma, cada uma colocava a própria mão esquerda na própria teta esquerda) porque queria evitar mau agouro. hahahaha. Era muito engraçado. Mas o outro argentino havia deixado o país dele muitos anos antes e não sabia de nada. Terminamos a noite comprando algumas poucas garrafinhas de cerveja local, vendidas nervosamente no mercado negro, contrariando o bom senso que o Ramadan sugere. Pagamos entre 4 e 5 euros por cada mini-cerveja, uma pequena fortuna, mas ficamos muito felizes pois desde o começo da viagem, semanas antes, queríamos beber algo alcoólico, sem sucesso. Menem, mão na teta esquerda, não deu má sorte, ao fim da história. 




Zafer, turco, 42 anos. Em Ko Chang, ilha na Tailândia. 

Não me lembro onde exatamente conhecemos Zafer e seu primo. Estava passando uma semana com Núria, minha amiga catalã, nesta ilha da Tailândia. Descobrimos que pra conhecer a ilha precisaríamos alugar motos. Mas nenhuma das duas sabia dirigir motos. Foi quando conhecemos Zafer, e depois de muita conversa, propusemos alugar duas motos. Ele me levaria de garupa e o primo dele levaria a Núria de garupa. Assim todos nos divertiríamos e teríamos transporte compartilhado. Zafer era alto, bem alto, e recém-magro. Segundo ele, havia perdido 20 quilos viajando pelo Paquistão e o Nepal, entre eternas desventuras em série que ele atraía como moto contínuo. Se falar a palavra Menem dá mesmo azar, eu diria que Zafer era o próprio Menem, pobrezinho. Solteiro, não deixou claro se convicto ou não. Havia abandonado seu bar em Istambul, ou doado, dependendo da interpretação. Iria receber 20% do lucro pelos 5 meses seguintes. Quando perguntei se o havia vendido a resposta foi categórica: não! eu o dei pros meus amigos. Mas por quê, Zafer? Deu? Ah, eu não queria trabalho... então o dei. Mas quando eu voltar a Istambul poderei comer e dormir lá vitaliciamente. Hummmm. Investindo na velhice, hein, Zafer? Plano de aposentadoria magnífico. Nos contou que tinha um filho de 2 aninhos. Com a irmã.... Mas Zafer, isto é incesto, meu filho! Não!! Disse ele. Mas é meu filho, ponto final. Nem ousei perguntar mais nada, pois na minha curiosidade de conhecer melhor as histórias das pessoas eu acabo, por vezes, me excedendo. E depois de viajar pela Ásia por tempo indeterminado, queria se estabilizar e ganhar dinheiro para ajudar a irmã a cuidar do filho. Filho-sobrinho, imaginei eu. Ah, e o mais importante, segundo ele, é que ele tinha decidido parar de ser preso. Sim, porque segundo ele, havia sido preso inúmeras vezes na Turquia, na Alemanha e na Áustria (onde morou e se graduou em economia para nunca exercer). Causas das prisões? Inúmeras. No entanto, na maioria das vezes, por questões políticas. Ainda que anárquicas. O cara, anarquista de carteirinha, embora carteirinha soe muito institucional para um anarquista, ajudou muitos turcos a entrarem pela fronteira da Áustria para a Alemanha, pelas montanhas, na calada da noite. Criou jornais anarquistas, com a ajuda de voluntários, e na Turquia arranjou brigas sem fim com a máfia russa, que opera lá. Foi esfaqueado em diversas partes do corpo (as cicatrizes não eram muito bonitas) e quebrou outro tanto de ossos. Desde criança o rapaz tinha uma estranha "atração" pelo perigo. E pela encrenca. Órfão de pai (e posteriormente de mãe) começou a trabalhar desde os 9 anos de idade e embora tenha vivido em outros países, sentia-se turco sem dúvidas e nem senões. Suas histórias eram corroboradas pelo primo, Order, advogado trabalhista em Bremen, Alemanha. Ele sorria amarelo cada vez que eu dizia: Não! Não acredito! e ria indignada de Zafer e de seus absurdos. Order sorria amarelo, e afirmava com a cabeça querendo dizer, com os olhos, é, é verdade mesmo, o que se pode fazer? No último dia em que estivemos com eles, em uma praia pequena e desértica, Zafer confirmou sua relação magnética com acidentes. Cortou o pé profundamente nos corais enquanto gesticulava e encenava uma de suas histórias fabulosas. Última vez que o vi, estava dando pontos no hospital, sorrindo e acenando pra nós. Está tudo bem, ele disse, com olhos bondosos e sorriso de menino, é assim mesmo, fazendo gestos com as mão. Boa viagem, e evitem encrencas, meninas! Nós sim, Zafer, evitamos!
Alguns poucos meses depois, estava em Istambul com minha irmã e meu ex-cunhado turco. Andávamos por uma área de bares e discotecas. Vi o nome do bar que Zafer havia me dito que teria sido dele. Encontrei mesmo ao acaso, lembrava que era a tradução de Anjo em turco, acho que algo como Melek. Mas também pelo desenho de um anjo. Coincidência total. Entramos, bebemos e dançamos a noite toda. O ex-sócio dele estava lá, ficou feliz de saber que eu havia conhecido Zafer e confirmou todas as histórias malucas que ele havia me contado. Rimos muito. E como diz uma amiga, o mundo é uma quitinete.




quarta-feira, 4 de janeiro de 2017


A CARA DA FELICIDADE ... QUANDO VOCÊ VIAJA LIVRE, SENTINDO-SE CONECTADA COM A NATUREZA E SEU CORAÇÃO. NADA DA ERRADO, TUDO ENTRA EM SINTONIA PERFEITA E PERFECT TIMING. ISTO TUDO É QUANDO OUVIMOS O CHAMADO DA NOSSA ALMA. MAS RARAMENTE OUVIMOS...


MEMENTOS. VIAGENS POR AÍ.



domingo, 11 de dezembro de 2016

Viajantes: personagens da vida real.

         Não raro, em viagens principalmente, pois é quando estamos mais abertos a olharmos para o mundo além do nosso próprio umbigo fedido, conhecemos pessoas sui generis. Aquelas que nem nossa imaginação mais inspirada poderia criar. Cujas personalidades, atitudes e histórias (de vida ou inventadas), colocam as fantasias de Macondo, em Cem Anos de Solidão, no chinelo. Na sola do chinelo. A cada bocado de quilômetros rodados, voados ou camelados, não ganhei milha alguma, mas conheci pessoas que me fizeram me sentir parte de um enredo mais intrincado, genial e imprevisível do que eu seria capaz de inventar com minha própria vida. Pois esta crônica é dedicada a cada uma delas. Que serão adicionadas cada dia mais, conforme minha memória traquinas  me presentear com seus achados. Os nomes destas pessoas foram mantidos os mesmos, assim como suas nacionalidades, embora eu pudesse mentir que eles foram alterados para proteger suas identidades. Portanto, qualquer semelhança com fatos reais, não, não, não é mera coincidência. 

Ram, sexo masculino, idade imperscrutável, da religião Sikh. Pushkar, Rajastão, Índia. 

       Descendo uma ladeira que daria no famoso e sagradérrimo lago desta charmosa cidade (que depois veio a mudar completamente) no noroeste da Índia, descíamos tranquilamente, Camila, minha irmã e eu. Era uma tarde ensolarada e preguiçosa. Detesto esta descrição. Não, a tarde não era preguiçosa. Eu e minha irmã sim. Então vou alterar. Era uma tarde ensolarada e eu e minha irmã, descíamos uma ladeira, preguiçosas (como sempre). As lojas neste ponto da rua já estavam rareando, quando este homem de turbante (típico dos seguidores da religião dele)  bigode preto grossssssso e lustroso, nos convida a um CHAI (chá), usando a estratégia mais manjada possível para atrair clientes. Come drink some tea, and look my shop. No, thanks. Yes, please. No, thanks. Yes, please. Ok. Tea. Metade do copo de açúcar e o resto de chai. E no segundo segundo de conversa, Ram já estava hipnotizado pela minha irmã. Parece que o bigode dele ficou mais preto e lussssstroso de repente. O turbante mais ereto. Ram mais falante e galanteador. Vendia prata, outras pedras preciosas. De certa forma, interessava à minha irmã, não necessariamente naquela hora, naquele dia, mas ele faria valer cada minuto do tempo dela ali, na companhia dele. O sultão do Rajastão chamava minha irmã de Kamela, olhando beeeeeem profundamente nos olhos dela, alisando o bigode, e tentando segurar sua atenção por mais um tempinho. Quando ia falar o nome dela, parava um segundo, fazia uma pose de importante, aumentava o tom de voz e olhava pra ela: Ka-me-laammmm. Bem pronunciadinho. Tudo intenso. Prata vai e prata vem. Fui ficando meio cansada, embora me divertisse com Ram. Ram queria se livrar de mim. hahahahahaha. Sim, queria. Tudo o que eu perguntava, que via na vitrine, pela parte de dentro, ele dizia rapidamente, ah, pode pegar ali e olhar. Tipo, te vira, guria, não me tira a atenção destes olhos azuis. Não foi nossa única visita à loja. Impossível que fosse. Aquilo virou um passeio, uma atração pra nós. Em uma destas visitas Ram foi buscar um saco enorme. Eram fotos dele. Feitas em estúdio, em sua maioria. Ram de frente, Ram de lado, Ram fingindo não ver a câmera, Ram com o olhar perdido no horizonte, Ram assim e Ram assado. Ram era muito vaidoso, sim? Ram e seu saco de fotografias me fazem sorrir. Pois e não é que, em outra visita falamos sobre nossa cidade natal, Ribeirão Preto, e ele pede pra escrevermos nosso endereço. O meu, no caso, pois Kamelammm morava na Inglaterra. Escrevi e ele olhou, olhou e foi buscar algo. Disse, olhem! Tenho uma amiga da mesma cidade de vocês... Não pude crer. Era verdade. Da rua abaixo da que eu morava na época. Disse ele que ela era fotógrafa e tinha esquecido um vestido lá. Deixado, acho. Não sei se esquecido. Me propus a levá-lo pra ela, mas acabamos nos esquecendo dele também. Anos depois, quando Kamelammm voltou a visitar Pushkar, Ram não morava mais lá. Tenho certeza de que a cidade ficou mais vazia sem ele. Alguns meses depois, conheci a tal fotógrafa e rimos muito das histórias de Ram.

Ohad, 22 anos, judeu, israelense, sul da China, a caminho de Jinghong. Ah, sexo masculino, alma, feminina. 

         Era um dia particularmente difícil pra mim. Despedi-me na véspera de alguém que tinha sido muito importante na minha viagem pela Ásia, e também na minha vida. Viajamos por mais de 2 meses, de aventuras e muita sintonia. Ainda estava abalada com a despedida quando fui para o ponto de ônibus nesta cidade chinesa, Kunming, que não podia deixar boas impressões e lembranças. Notei um rapaz franzino, vestindo sei lá o que era aquilo.... parecia uma fralda, algo como o que Gandhi costurava pra ele mesmo. Mas mais tosco. Ele esperava o mesmo ônibus, acreditei, Certamente ele era um mochileiro, mas não carregava exatamente uma mochila. Levava uma trouxa, pendurada no ombro. Pensei, que ser ímpar... mas eu não estava pra conversa. Viajaríamos por 12 horas em direção ao extremo sul da China, e eu nem bem sabia o que eu estava indo fazer lá. O ônibus chegou e era pra ser um ônibus leito. Bem, e era. De acordo com um país de mais de um bilhão de habitantes, de onde a cada porta que se abre, saem pelo menos 100 pessoas. As caminhas, ou seja, os leitos, eram como beliches. Havia 3 fileiras delas, emparelhadas. Ou seja, uma à direita, outra no meio e outra à esquerda. Eram frágeis e sem apoio, Se bobear, você cairia dela. Impossível dormir ali. Sentar tampouco, pois a altura do teto não permitia. Abaixo de mim, outro ser dormia e vários pegavam uma "beira" na cama do coitado. Ohad estava bem ao meu lado, flutuando como eu no ônibus sem conforto, se segurando pra não cair e fugindo das cabeças e cotovelos das pessoas que viajavam de pé, sim, de pé, fungando na nossa cara, cangote, virilha, sei lá. Apesar do meu azedume, começamos a interagir um pouco devido as dificuldades de nos manter no alto, da impossibilidade de dormir e do gelo do ar condicionado. Ao chegarmos em Jinghong, já havíamos combinado de arrumarmos um quarto, bangalô, o que fosse, pra dividirmos. Ohad queria caminhar enquanto procurávamos, mas eu estava moída. Insisti em arrumarmos um táxi e descobri que Ohad era o bicho mais pão-duro que eu poderia encontrar... e olha que conheci muito viajante pão-duro. Apenas nesta vez ele topou gastar com o táxi. Mas depois ele me faria economizar cada Yuan que gastamos na corrida. Menos história e mais biografia. Ohad era um menino puro, bem molecão, que tinha uma mancha no seu passado... abandonar o serviço militar israelense antes de cumprir os 2 anos. Bem, mesmo sabendo da exigência do serviço militar deles, não imaginava que esta atitude poderia ter consequências sérias pra ele. Como referências de trabalho ou qualquer uso do serviço público. Ohad não serviu nas fronteiras, não tinha que empunhar armas, nem trabalhar em um escritório sisudo e maçante. Ele era da banda de rock do exército. Tocava, ensaiava, divertia o pessoal aí de cima, do estresse. Mas mesmo assim para Ohad isto foi demais. Cara sensível, cheio de questionamentos existenciais. Não se encaixava no exército. E pagou o preço. Ia tentar ser ator. Torço pra que tenha conseguido. Mas Ohad e suas idiossincrasias não acabam aqui. Passamos apenas alguns dias dividindo o mesmo quarto, mas foram dias produtivos e curiosos. Ele meditava todas as noites sentado na cama, virado pra parede de madeira vagabunda. Olhava um ponto fixo. Meditação zen-budista, disse ele. Queria que eu aderisse a esta técnica. Insistiu. Mas Ohad, meu amor, eu já tenho a minha própria que uso há anos. Que é qual? Nenhuma. Então vai meditar assim, sim, sra. E lá ia eu, olhar pro ponto fixo na madeira. Pois foi assim que Ohad me contou a história de sua irmã, monja zen-budista. Ex-lésbica, casada espiritualmente com outra monja-zen budista. Viviam em um mosteiro acho que no Japão, mas se conheceram em um mosteiro sei lá onde. Mas Ohad, meu querido, não tem isto de ex-lésbica. E não tem isto de ser casada espiritualmente com outra monja. Tem, sim. Mas como? Tendo! Eu que era a limitada e não conhecia nada de monjas-ex-lésbicas-casadas-espiritualmente-com-outra-monja-ex-lésbica. E isto era muito sério pra ele, que admirava imensamente esta irmã, que pelo que percebi era uma pessoa muito carismática segundo os relatos dele. E devia ser muito convincente pra fazer alguém se casar com você sem poder fazer nada mais. E Ohad também tinha outra irmã mais mundana e engraçada e uma mãe também descolada que o encontraram em duas ocasiões na viagem dele pela Ásia. Eles fizeram trilhas, nadaram em cachoeiras, praias, acamparam, subiram montanhas, o escambau. Ohad tinha uma coleção bizarra de fotos da mãe e da irmã fazendo suas necessidades ao ar livre, ensandecidas com ele tentando fotografá-las enquanto se equilibravam. Ele tinha muito zelo por estas fotos. ???? Ohad sonhava em parir. Mudar de sexo, Ohad? Não, não. Apenas parir. Gestar e dar a luz. Ah, bom, entendi. Ohad tinha emagrecido 12 kilos durante a viagem. Fazia tudo que fosse possível à pé, comia o mínimo e economizava o máximo. Tinha um montão de grana guardada ainda. Mesmo depois de 6 meses na estrada.  Ficava muito bravo porque eu não comia toda a comida do prato, mas eu estava super triste ainda com minha despedida e não conseguia comer. Inventei uma dor de garganta. E ele, então deixa que eu como. Nestes dias juntos eu também acabei economizando uma boa grana. Ele tinha todos os esquemas de entrar nos parques naturais sem pagar, mesmo que isto implicasse em pedalar por dezenas de quilômetros a mais. Um dia, descolou carona pra nós em um caminhão de abacaxis. Os chineses ficaram com dó da gente ir lá atrás com os abacaxis e deixaram a gente ir com eles na frente. Surpreendente por 3 motivos: chinês não dá carona, chinês não quer saber de ajudar estrangeiro e eles não falavam uma única palavra de inglês. Ohad era um cara genial. 

La calva y la rastafari. Alemãs, jovens, perdidas por aí.

         Talvez em algum lugar do meu diário de bordo eu tenha anotado os nomes destas meninas alemãs com quem cruzei um par de vezes em cidades distintas. Como a própria descrição inicial diz, uma era careca e a outra rastafari. O nome cunhado em espanhol foi dado por Núria, uma amiga catalã que fiz depois de Ohad e que viria a viajar por muitas semanas comigo, de maneira intermitente, por vários países. Ela também se encontrou em distintos lugares com as duas, algumas vezes comigo junto, outras sozinha. Elas muito provavelmente eram um casal, mas em nenhuma das nossas animadas conversas isto foi mencionado. A primeira vez que as vi foi no bangalô-palafita que aluguei com Ohad. Eram nossas vizinhas de frente e estavam sempre sentadas no chão, na terra mesmo, debaixo de uma árvore que nos separava. Como muitos dos alemães da idade delas (pelo menos na minha experiência como viajante), elas se vestiam como mendigas. Não que meu guarda roupa fosse um exemplo de classe e bom gosto a esta altura, mas Ohad e elas se destacavam pelo despojamento anti-estético, por assim dizer. Nossa primeira conversa foi sobre uma aventura que elas estavam prestes a começar. Digamos que uma aventura baseada nos episódios de Jack Ass, onde o fim desastroso já está previsto. Elas iam comprar duas bicicletas que os locais usavam para transportar de tudo: botijão de gás, animais, lenha, capim, frutas, you-name-it e atravessar a fronteira até Laos. As bicicletas tinham design estúpido pra tal façanha. Eram pesadíssimas (só de olhar dava pra saber), feitas de ferro, rodas pequenas, e o compartimento para levar carga a deixava mais pesada ainda. Mas era pra carregar as mochilas delas ... ahhhh, bom, entendi agora. Meu espírito de aventureira masoquista me levou ao ímpeto de me convidar para ir junto. A coisa mais idiota que poderia me ocorrer. Mas eu queria algo que me tirasse da minha melancolia dos últimos dias. Nada melhor do que uma coisa ridícula destas, fadada ao fracasso. Ok, elas disseram. Mas você precisa comprar uma bike destas até amanhã à tarde, pois partiremos em 2 dias, bem cedo. Passei o dia seguinte percorrendo a cidade e querendo comprar a tal bicicleta suicida de algum morador. Não havia em lojas, não naquela cidade. Ninguém queria me vender, o que era óbvio pois estas pessoas as usavam pra trabalhar e o que uma estrangeira sem noção queria com uma bicicleta utilitária daquelas? Voltei desolada e contei à calva y à la rastafari meu insucesso. Elas me disseram que ainda havia uma chance. Se uma destas bikes delas tivesse conserto, elas levariam minhas bagagens e eu iria com uma bike comum. Elas pediram pra eu esperar até o fim da tarde, quando teriam resposta do cara que estava tentando o conserto. Nada feito. Fiquei frustrada, mas desejei-lhes boa viagem. Elas partiram assim. Uma bike normal e a outra utilitária levando a bagagem das duas. Uma semana depois, encontrei com as duas em uma cidade de Laos. Fui correndo pra saber como tinha sido a loucura. Durou meio dia. Acontece que a bike utilitária quebrou, o trajeto era montanhoso (eu bem que pensei nelas no caminho da travessia China-Laos,e me senti aliviada de não ter ido quando vi as montanhas), era impossível pedalar depressa e por muito tempo. Tiveram que acampar até o amanhecer e tomar um ônibus. Que pena, meninas... Fomos tomar uma cerveja na beira do rio. Ver o pôr-do-sol e celebrar a vida. Ainda encontraria com as duas em outras cidades, sem esperar, sem combinar, mas sempre um encontro inusitado e inspirador (elas e suas ideias que não paravam de brotar). 



Mais personagens da vida real, em breve. Nos próximos episódios.