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sábado, 26 de setembro de 2015

O Céu e o Inferno - de um Viajante.


Céu é upgrade. Inferno é voo cancelado, atrasado, desviado... Ou seja, o céu é pra poucos, privilegiados, sortudos, rabudos, ou bem relacionados. O céu do viajante não tem nada a ver com o céu divino, justo, indefectível e baseado na equação karma - dharma. O céu do viajante tem mais a ver com sorte, chance, oportunidade... é o famoso `se calhar´, português. Ou, como no aforismo de Nelson Rodrigues: "Com sorte, você atravessa o mundo, sem sorte você não atravessa a rua". Céu é amigo que te busca no aeroporto. É abraço na chegada, é plaquinha de zoeira com seu nome no desembarque. Inferno é chegar na madrugada, em um país desconhecido, no frio, no blecaute, sem saber direito pra onde ir. Céu é comer uma refeição caseira depois de dias ou semanas comendo em restaurantes, supermercados, feiras de rua. É também dormir em uma cama cheirosinha, no sofá-cama de um amigo ou conhecido, com lençóis macios e travesseiro na medida. Inferno é convencer seu pescoço que aquele travesseiro recheado de arroz, naquela aldeia remota da China, é melhor do que nada. E repousar sobre os grãos duros, deixando o cansaço do dia. Céu é quarto de hotel melhor que na foto. Inferno, bem... o exato oposto. (Como é que aqueles desgramados conseguiram um ângulo tão bom desta espelunca??!). O céu e o inferno do viajante não seguem uma linha lógica de raciocínio. Pelo simples fato de que, geralmente, o que se espera que seriam obviedades, como um quarto com lençóis limpos, ou  um restaurante que serve o que a foto do cardápio mostra, não passam de um embuste, um nó no bom-senso, uma piadinha de mau gosto. E outras, quando tudo parece perdido e ferrado, e desencarrilhado, aparece um ser inesperado, e salva o dia, o passeio, a pátria toda. É aquele senhorzinho que não fala uma única palavra de inglês, mas te pega pela mão pra mostrar que a estação de trem que você busca há horas, está logo ali, a poucos quarteirões de distância. É o taxista divertido que te faz morrer de rir pelo bom humor, gota do oceano do seu próprio mau humor depois de um dia de cão. É o casal da mesa ao lado que puxa conversa com você, no café, e acaba te dando dicas valiosas de um lugar incrível que você nem sonhava que existia, e que está logo ali. É o teu companheiro de beliche que divide um chocolate gostoso na noite chuvosa em que não dá pra sair do hostel. E as memórias boas, assim como as ruins, puxam umas às outras como numa corrente em que os elos estão bem conectados. Por isto até temo em voltar a falar do inferno, mas é também inevitável não pensar nele. Ainda mais que o tempo acaba por destilar o sabor amargo da experiência e torna tudo hilário, leve, quase bom. Inferno é dor de barriga. Dor de barriga em si é o inferno. Mas dor de barriga no meio de uma cidade barulhenta, caótica e com raros banheiros públicos, bom, daí é, como se diz, beijar o capeta. Agora, a quintessência dos infernos, a que daria inveja a Dante, é ter dor de barriga na fronteira da Bolívia com o Peru. Um apanhado de casas esparsas, onde você desce do ônibus e tem alguns momentos pra carimbar seu passaporte. Entre vendedores, viajantes, galinhas, lama. O único banheiro disponível é escuro, está alagado, tem uma porta que não cobre sua cabeça e... uma fila de viajantes te olhando. Uma mochila pesada nas costas, pés enfiados na água, tudo desafiando a lei da gravidade, a lei de Murphy, a lei dos resíduos sólidos, a lei de Newton, sei lá mais que lei! Ritual de iniciação. Bienvenido ao Peru. Céu é ter uma mesa com pessoas dos 5 cantos do mundo e achar muitas coisas em comum, descobrir humor em comum, e dar gargalhadas em línguas diversas. 
Sem dúvida alguma, o céu e o inferno nascem subjetivamente de uma percepção, de um humor, uma predisposição à entrega do momento. À uma alquimia que nos permite escolher transformar um imprevisto em algo divertido, um erro em compreensão, algo denso em leveza. É tarefa árdua. Pode ser desafiador demais. Isto me remete à crônica da diferença entre viajantes e turistas. Certamente, passar do inferno ao céu depende de uma variável rara e cara: uma atitude interna positiva. Por isto continuo fazendo das viagens minha religião. Minha prática espiritual. Pra evoluir ainda faltam milhas e mais milhas. Let´s check in! 

terça-feira, 16 de junho de 2015

Mais de Portugal.

          Ainda sobram anedotas sobre o querido Portugal. Difícil não sentir saudades das paisagens bucólicas e inesperadas do pequeno país ibérico. Vontade de comer sericaia, delicioso pudim obtido de um creme fofo feito de gemas, açúcar, leite, canela em pau, farinha e cascas de limão. E depois, com sorte, acompanhado das magníficas ameixas de Elvas e sua calda. Memórias torturantes. Vontade de comer o pão alentejano, de casca grossa, quentinho colocado sobre a mesa em um saquinho de linho para mantê-lo assim por mais tempo. E depois besuntá-lo de algum queijo de textura pastosa, como o queijo de Azeitão ou o serra da Estrrrrrreeeela, que me dá espasmos só de lembrar. Bacalhau à Brás (bacalhau desfiado, ovos mexidos e batata palha), Açorda à Alentejana (pão caseiro, ovos, coentro, alho, azeite), salada de polvo com coentro (polvo e coentro, hahahaha), sopa de grão com espinafre (grão de bico e espinafre), etc etc etc. Além de muita carne de caça, que eu não comi, porque não como e não quero comer.
           Os portugueses, assim como outros europeus, ainda caçam bastante. Em muitos restaurantes do interior é comum ver como decoração cabeças de veados, javalis, e outros animais de caça penduradas nas paredes. Também é comum encontrar clubes de caça em várias cidades. Este era um aspecto da cultura local que me incomodava muito, mas ... pronto, não há o que fazer a não ser registrar como parte de seus costumes ainda muito presentes. Adoraria ver um corno, manso ou não, cortado ao meio e empalhado, pendurado junto aos outros animais, alguns com cornos, outros sem. Wouldn´t it be lovely? 
         Mas voltando ao tema calórico e alimentar... os doces portugueses. Chamados de doces conventuais, porque basicamente se originaram nos conventos. Usavam-se as claras pra engomar as roupas e os hábitos de então. Portanto, o que fazer das gemas? Gemada tem limite! Assim, em um passe de mágica (quem disse isto?), nasceram receitas para driblar o desperdício. Adicione-se às gemas, açúcar, leite e o que mais houver. Não à toa, todos os doces conventuais levam açúcar e leite e gemas ou gemas, leite e açúcar. Hoje me pergunto, o que é feito das claras? Aonde andarão as claras? O que me dizem das claras?? Pego-me à noite, indagando. 
          Nem só de doces vivem os homens (já, as mulheres, creio que sobreviveriam), portanto há os vinhos. Os vinhos! Não tenho palavras para descrever os ... vinhos! Portanto, melhor bebê-los e me recolher na minha insignificante ignorância. Refeição sim e outra também, uma taça de vinho português só pode adicionar anos à nossa existência. Alvarinho, trajadura, touriga nacional, trincadeira, baga, castelão, aragonez, alicante bouschet, etc e tal que ninguém consegue memorizar mais que um par destes nomes peculiarmente curiosos. De ano em ano adicionado à existência, os rapazes portugueses tem em média 80 anos... os mais velhos... nem se computa. 
          A crônica de hoje foi uma pequena ode aos prazeres da mesa portuguesa. Uma pequena celebração aos pequenos prazeres da vida. Um brinde!

                                         
                      A RABANADA CLÁSSICA DO CAFÉ MAJESTIC, EM PORTO.
                 
   OLIVEIRAS CENTENÁRIAS NOS QUINTAIS DE PERAIS. NA BEIRA.

                                                
                                      BARRICAS DE CARVALHO, NA HERDADE DO MOUCHÃO.

                             VINHAS NA PODA DE INVERNO.




terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Pequeno manual nonsense do Português de Portugal.



Muitas pessoas gostam de fazer comparações entre o português bem lusitano e o nosso, safado, desviado, reinventado. ´Ah, quando fui à Portugal eu mal os entendia, preferia falar em inglês com eles`, disse-me uma conhecida. Achei um pouco de exagero e dei risada. Outra que ´está a morar cá´, como eles dizem (escrevo esta crônica aqui do Alentejo), disse ter tido dores de cabeça nas primeiras semanas de tanto se esforçar para entendê-los, já que por estar trabalhando, não podia perder detalhes que lhe seriam caros em sua comunicação com clientes e superiores. 
Confesso que tenho meus problemas em interpretá-los, muitas vezes. Não raro entendo coisas tão absurdas que chega a irritar meus amigos quando eu digo o que entendi. Mas mesmo no Brasil eu tenho um pouco deste problema, hahaha. Acho que é uma combinação de um pouco de surdez (não diagnosticada) com o fato de eu ser bem desligada e até um pouco criativa nas minhas interpretações. Pra que se limitar, hã? Há sem dúvida, uma enorme diversidade de sotaques aqui dentro. O do norte me soa mais difícil de entender. Parece-me mais fechado e arrastado. O daqui do Alentejo é bem cantado, eles repetem algumas palavras de modo que soem como interjeições : ´Ai eu, ai eu!`. É divertido, a meu ver, mas bonitinho também. Sei que língua e identidade cultural, nacional e sócio-econômica estão diretamente ligados e não tenho a menor intenção em ´caçoar´ dos portugueses e dos seus sotaques. Não mais do que eles mesmos o fazem, hahaha. Há programas humorísticos em que os atores imitam sotaques simplesmente impossíveis de se decodificar. São os extremos, obviamente. Mas se não me engano, também houve um filme brasileiro recente que foi lançado com legendas em português, não? Quanto aos sotaques do Açores e da Madeira, ainda não encontrei ninguém nesta viagem. Mas lembro-me de quando morei em Londres, não raramente eu me punha a ouvir pessoas do mundo todo conversando nos trens do metrô e demorava muito a reconhecer que era minha própria língua falada pelos imigrantes destas ilhas. Há um vídeo impagável no youtube que explica o sotaque do Açores para os portugueses do continente. Entre inúmeras diferenças citadas, minha favorita é a maneira dos açorianos chamarem refrigerante: ´água d´arroto´. O vídeo está intitulado: Os Açores explicados aos continentais.
Enfim, pra fazer justiça ao título desta crônica, vamos a uma breve lista de diferenças do léxico lusitano e do tupiniquim. 
Aqui banheiro é casa de banho e privada é sanita. Tomar um café é tomar uma bica. Quando você espirra, diz-se santinho! e se você for mulher, santinha! Academia de ginástica é ginásio. E a expressão muito usada para os estrábicos que tem ´um olho no peixe e outro no gato´, aqui tem o equivalente em ´um olho no burro e outro no cigano´, pra se ver o nível de confiança nos mesmos... Pinto, o órgão reprodutor masculino é pila. Ou pilinha, dependendo do dote do rapaz, hahaha. Ônibus é autocarro e trem é comboio. O verbo ´saber´ tem vários usos, dentre eles ´parecer-se com e ter gosto de´. Portanto se alguém diz que algo ´sabe a banana´, quer dizer que tem gosto de banana. Rata é um nome bem feio pro órgão reprodutor feminino, e broche é um nome bem feio pra sexo oral. Hahaha, quem não gosta de aprender besteira em outras línguas? Mesmo que esta língua seja a sua! Um puto, é um menino, criança, mas uma menina não é uma puta, somente menina mesmo. Ou miúda. Tomar uns copos é a expressão mais usada para tomar algo em um barzinho ou restaurante. Rabo ou cu é a nossa ´bunda´, ou melhor, a de vocês, a minha não. E não tem nenhuma conotação pesada. Se a pessoa tem o cu largo, ela tem a bunda gorda. Ai,agora eu fiquei um pouco em dúvida com estas palavras... de tanto tirar sarro destas diferenças eu acabo me confundindo às vezes e meus amigos já estão dormindo e eu não posso tirar dúvidas com eles...Bem feito pra mim, que tiro sarro de tudo e me confundo no final. Qualquer coisa eu publico uma errata depois... Não importa. Minha credibilidade não é das melhores mesmo hahaha e isto é uma crônica e não um tratado linguístico. 

Mas eu gostaria (aqui eles não usam o passado do pretérito, mas falam ´eu gostava´ao invés de ´eu gostaria´) de terminar com as gírias lusas: giro (ou gira, ou até mesmo o superlativo giríssimo\a). Fixe. Porreiro ou porreira. Pronto. Basicamente as gírias portuguesas para legal, bacana, interessante, belo, gostoso, divertido, etc etc etc são essas mesmas. Giro, fixe e porreiro. De vovozinhas à crianças bem pequenas... já ouvi todos usando estas gírias. E, ao que me consta, elas são bem antigas. Gosto de pensar que Pedro Álvares Cabral já comentava sobre as terras que avistava das caravelas Santa Maria, Pinta ou Nina, não sei, porque isto é irrelevante: ´Olhem que terras mais porreiras,ó, pá!´. E, posteriormente, Pero Vaz de Caminha teria escrito em suas cartas descrevendo o Brasil: ´Aqui são terras de pessoas muito fixes, que andam com suas vergonhas de fora, balangando ao vento, mas que aceitam trocar quinquilharias sem valor, por ouro, muito ouro, inxalá, que eu acho é giro!´. 

Portugal é fixe. Pra praticar mais um pouquinho e não correr o risco de me confundir como confundi bunda e rabo, que é um perigo! 


terça-feira, 8 de julho de 2014

Camden Town - Um poema.

Tirei um poema do baú. De quando morei em Londres. E estava apaixonada. Foi escrito no mercado de Camden Town, em algum bar. Por uns instantes apenas, deixo a crônica e descanso na poesia. Pra quem dela não gosta, aguarde a próxima crônica, que ela vem sim.



Flores de madeira
à beira do canal.
Gotas de plástico colorido
segundos de duração diversa.
Não que eu os queira levar a mal.
Meus olhos tudo fitam
- nervoso nervo óptico -
mas em nada repousam.
(procuram um certo olhar,
que tarda, que tarda).
Objetos day-by-day
em texturas mesmas e outras:
cotidiano repensado.
Minhas mãos se divertem
boiando, abrindo, roçando,
mas procuram outras mãos
que escorregam de tão leves,
esquivando-se
e se quebraram.
Minha boca se pretende oca
dura, seca, solta.
Já não procura alguma outra boca.
Morreu... (ou está louca?).
Fica rindo e rodopiando.
Sprayando notas musicais
de um incenso tailandês.
Quero sentir de vez o perfume
daquele colo, que meu braço não alcança.
Em Camden os sentidos se deixam enganar,
a essência é que está intacta e irredutível.
Escorre, sub-reptícia.
Acumula-se,
exalando o nonsense
de uma paixão mal dissimulada.






sábado, 21 de junho de 2014

A chuva de arroz azedo: uma crônica curta e ESCATOLÓGICA (aviso em letras garrafais para os fracos de estômago).

           Saindo de Xiahe, situada à província de Gansu, China, uma cidade extremamente isolada onde eu e Virginie visitamos o maior monastério tibetano fora do Tibete e que - sim, merece sua crônica própria - perdemos o ônibus que nos levaria à Lanzhou. Não fosse pela francesinha arretada e planejada, eu, brasileira perdida no tempo e espaço, talvez ainda estivesse perdida a milhares de quilômetros dali, ainda pensando qual das centenas de rotas traçar pelo quebra-cabeça intrincado que um país de dimensões continentais pode conter. Pois poucas semanas antes, nos encontraríamos em um trem noturno para Pyingao, a cidade do sistema bancário e eu compraria a sua ideia de seguir a Rota da Seda. Não, não é uma rota de maconheiros em busca de papel para enrolar "unzinho", hahaha. Na verdade, historicamente, houve várias rotas. Elas se interligavam pela Ásia do Sul e eram usadas no comércio de seda entre o Oriente e a Europa. Mas uma das rotas se destaca turisticamente e tem seu início no território chinês. E foi por ela que nos embrenhamos, começando uma aventura sem igual, que até hoje me enche de alegria  ao buscá-la na memória.
        Lanzhou, a cidade para a qual nos dirigíamos, não tinha nenhum grande atrativo em si, mas seria estratégica para visitarmos outros lugares e fazermos de base para um ou dois lugares. E para esta cidade perdemos nosso amado ônibus das seis da manhã... Pois nos enfiaram no ônibus seguinte, talvez nem tão confortável como gosto de fantasiar que teria sido o que perdemos. Bom, era o típico cata-osso e gaiola de galinhas que é fácil de se imaginar. Bagagens? Lá no teto do ônibus, do lado de fora, cabelos ao vento, porque dentro já havia trecos demais para acomodar. Um pulgueiro. Lamentável. Mas seriam apenas 150 quilômetros. Eaaaaasy. E lá vamos nós. Galerinha chinesa dos dentes podres fumando horrores já às oito da matina. Dentro do ônibus, claro. Por que não? Janelas fechadas... já que o frio era intenso. Não seria a primeira nem a última briga com chineses fumantes dentro de lugares claustrofóbicos como ônibus e vagões de trem. "Vamos parar de fumar! Vamo bota ordi nessa zona!". E sempre riam da nossa cara fazendo mímica pra apagarem os cigarros. Dentes pretos e hálito puro. Vai ser foda. 150 quilômetros, pára um pouquinho, respira um pouquinho, 150 quilômetros.... Aceitemos, vai ser um inferno. E a estimativa era a de fazer 150 km em aproximadamente 7 horas!!! O destino é a jornada em si. Dizem os sábios. Porque os sábios.... meus amigos... não tomaram este ônibus. 
        O motorista parava a cada 500 metros. Para embarque e desembarque de passageiros, hortifruti, malas, pequenos animais, objetos voadores não identificados, bigornas, próteses mamárias, refil de creme anti-celulite, descarte de camisinhas usadas, tu-do. Começamos a nos irritar profundamente. A super lotação se fazia sentir. A área era totalmente rural e o transporte devia ser escasso. Nós nem tínhamos direito de nos irritar, mas era um exercício de supremo auto-controle. Mudávamos de assento, mas não encontrávamos posição. Brigamos com o cobrador, xingamos a mãe dele, a mãe do juiz, a mãe de todo mundo... menos a minha, e acho que a da Virginie, não me lembro bem. Daí consegui um lugarzinho no corredor. Virei minhas pernas pro lado de fora, pois elas não cabiam no espaço pequeno. Recostei a cabeça do encosto da poltrona. Sabia que Virginie tinha conseguido um lugar na última fileira, mas que estava presa pois tinha um cara do lado dela com algo muito pesado no colo e ele mal se mexia. Acho que até cochilei. Haveria a paz reinado? Foi quando ouvi as trombetas anunciando o dilúvio. O cara de trás vomitou na minha cabeça. Ele se levantou e vo-mi-tou na minha cabeça recostada como um anjo dormente. Pausa para digerir o acontecido. 

         Eu não podia crer! Fiquei pasma, sem reação. Senti uma ânsia enorme, mas me recusei a vomitar. Seria um show de horrores. Um vômito em dominó que só pararia quando alguém morresse afogado. O cara vomitou em umas três pessoas mas a cabeça era minha! Estava com um rabo de cavalo, o que no final acabou ajudando. Era uma chuva de arroz: azedo. Eu olhava pra ele, vestido naquele uniforme azul marinho que eu não faço ideia do que seja, olhando pro nada, com cara de idiota e sem esboçar qualquer reação. Ele não se desculpou, não tentou ajudar, não se moveu. Ficou olhando pro nada, meio babado, e eu quis socá-lo. Principalmente pela falta de reação. Todos olhavam pra ele, falavam algo, reclamavam, mas ele lá, catatônico. Busquei meus lencinhos umedecidos, fiz o que pude com eles. Virginie queria ajudar, mas estava presa ao lado do cara que carregava o trator. Levantei-me, fiquei com aquela cara de tonta, vomitada, vesga de tão enjoada. Achei outro lugar pra sentar. Um pouco amedrontada pois tinha visto a mulher do assento de trás pedir sacolinhas o tempo todo pra vomitar. Ela pegava uma sacola, abaixava a cabeça e bleeeergh. Pensei, menos mal. Esta daí tá se precavendo. Até que... o cara do meu lado, em frente à ela, levanta os pés e começa a xingá-la. Acho que ele gritava algo assim: " Sua vaca, você estava vomitando no chão o tempo todo fingindo que era nas sacolinhas, sua porca nojenta, agora o chão do ônibus esta todo lavado com este seu vômito verde-baço, sua annnntaaaa!!!". Ufa. Foi um tsunami. O chão ficou lavado. Conforme o ônibus se mexia o vômito seguia seu movimento em uma poça gigante. Não conseguia acreditar naquilo. Estava em choque. Como ela pode fingir por tanto tempo? Como cabia tanta coisa dentro dela? Sério, a ciência deveria estudar aquela mulher... e depois congelá-la...(viva). Finalmente as pessoas se rebelaram um pouco. Porque eita povo indiferente ao que lhe acontece! Mas de nada iria adiantar naquele ponto. A viagem estava na metade. Ninguém iria limpar o chão do ônibus. Não havia o que fazer. A não ser.... passando por uma cidadezinha, olhei pra Virginie atrás da peça de trator no colo do cara e disse, vamos saltar! A gente dá um jeito! Não fico mais um minuto aqui dentro! Fui... E ela me seguiu. E agarramos nossas coisas, nossas mochilas cobertas por uma camada de terra, meu cabelo duro de vomito seco, a pobre Virginie torta por não conseguir se mover no assento... A cidade era Linxia. Não creio terem visto muitos turistas por ali. Tomamos um chá em um restaurante-açougue. Negociamos um táxi na língua do "P", seguimos felizes e saltitantes por mais 75 km, pensando sermos duas estrelas de Bollywood. 
              Há coisas que o dinheiro não pode comprar. Mas as que ele pode... valem mais que mil lencinhos umedecidos em um ônibus na China! Alegria de pobre é escapar de vômito!





sexta-feira, 30 de maio de 2014

De propostas (quase) indecentes e outras bobagens.

    Há mais de mês sem postar nada... sinto-me mais triste por não ter tido muito tempo pra fazer o que gosto: escrever, do que por publicar, propriamente dito. Mas mesmo depois de um dia (uma semana, um mês... um ano?) atribulado, sobra-me um pouco de energia e disposição para rever alguns emails antigos e reescrever alguns trechos, reaproveitando os rascunhos de relatos wanna-be-blog. Para minha sorte, muita coisa se salva. E hoje limito-me a editar e alterar algumas coisas apenas, para alimentar meu prazer de dividir com vocês estas façanhas remotas, tão caras a mim. Amo-as todas, como  filhas idas. Não sei se hoje teria a mesma coragem de viver tão errante, tão certeira de mim. E nem a coragem de expô-las a tantas pessoas que me leem anonimamente. Mas certamente tenho o mesmo prazer em compartilhá-las.

    Lê-se em um ou muitos emails:

 "Namastê, Pessoas Queridas e Jamais Esquecidas,

   Vocês me pediram e eu não escrevi. Agora ninguém me pediu, mas  escreverei assim mesmo, porque sinto que, de outra forma, serei brevemente relegada a uma andarilha brasileira perdida na Ásia.
  Desde o último email na China  muitas histórias aconteceram. Passei por Laos - que, ao contrário do que muitos pensam, não é um estado da China, (mas sim um lindo país), Camboja, Tailândia e agora.... Índia, madam. Talvez consiga resgatar na memória algumas passagens destes países incríveis e, posteriormente, encherei mais uma vez a caixa de email de vocês com meus famigerados 'relatos infames', de quem não tem trabalho, nem filhos, nem casa pra limpar, em outras palavras, uma desocupada.

   Há 6 anos exatamente estive na Índia. Desta vez, ao chegar, notei algumas mudanças. A expansão do aeroporto, que agora conta com inúmeras lojas duty-free e não tem mais as lindas flores de plástico nas mesas de imigração, nem mesmo os mesmo dizeres nos posteres de plástico, no melhor estilo auto-ajuda que os indianos tanto gostam. O mau gosto muda de figura, e me deixa nostálgica da pureza estética do que habitou, um dia, estas paredes pouco amadas.

   Ainda na Tailândia fui precavida, tão rara postura em mim, e reservei um hotel em Déli, através de um site dito confiável, para evitar ficar procurando acomodação quando chegasse, tarde da noite. A idade nos estraga mesmo! Olhe só para como foi minha primeira experiência neste país, anos atrás.... mal sabia o nome completo da minha irmã, quem diria ter uma acomodação reservada previamente! Bom, fato é que cheguei, negociei duramente com um táxi não-autorizado (a segunda vez na Índia é moleza!), assegurei-me de que o motorista realmente sabia o endereço do hotel... sure, madam! Mas sim, na Índia, é não, quase sempre. Paramos no meio do caminho para pedir informação. Paradinha estratégica em uma agência de viagens aberta 24 horas.... hum? E já queriam me enfiar mil pacotes turísticos na mesma hora. Ha! E o meu hotel? Lotado. Como assim? Fiz reserva! Azar o seu, madam. Ai ai ai... começou. Mas eu paguei as taxas todas no cartão de crédito! Soooooooooo sorrrrrry, madam. Eu amo a Índia. AMO. Vamos praticar paciência. Acabei indo pro hotel mais caro da viagem até então. Era a única mulher hospedada lá, e os indianos me olhavam como se eu fosse uma mulher branca vinda de outro continente! Por este preço, pensei, dormirei em lençóis limpinhos, fresquinhos, crocantes. Nada disto. Cabelos mil e uma nuvem negra esfumaçada no travesseiro. Sim, dos dois lados. Nada do que meu saco de dormir de seda verde-varejeira que eu comprei em Laos não pudesse me proteger. Ele me salvou de todos os lençóis gosmentos da Ásia. E, para minha surpresa e deleite... banho quente! O primeiro em meses! Um luxo só. A sujeira sai muito melhor em água quente. Nem se compara... imaginem só, eu devia estar uns 3 milímetros mais gorda só de crostas de sujeira. Saiu tudo!
   Fresca e refeita, acordo bem cedo e penso: vou fazer turismo. Turismo mesmo, de bancar a turista. Havia séculos que eu não saía com um mapa na mão e um itinerário na cabeça. A Tailândia foi uma espécie de pausa... descanso. Não aguentava mais ver templos budistas, não podia mais com ingressos, museus, nem nada. Tailândia também foi... bom, um capítulo a parte, que se chamará: "Sobre quando eu NÃO me tornei monja”, ou coisa assim. 
   Meu dia de turista em Déli não decepcionou. Há coisas belíssimas pra se ver. Tais como o Red Fort, a maior mesquita da Ásia, o super interessante National Museum, templos hindus, a cidade velha e muito, muito mais. Basta ter, pra cobrir este imenso território, um bom motorista a tira-colo. Sim, dei-me este luxo! Sentia-me como uma senhora de meia idade, americana, com seu motorista anjo da guarda e talvez, amante. Certamente não no meu caso.É evidente que, a esta altura do dia, já tinha respondido umas vinte vezes se eu era casada ou não. E o mais difícil: o porquê! Com tantas perguntas, não preciso mais de terapia, pois para cada resposta eu pensava profundamente e respondia algo diferente. Nada além da verdade, obviamente.
  Eu também já havia arranjado alguns pretendentes.Todos através do meu motorista, Jarbas das Índias, que já devia ter espalhado pros amigos que estava guiando uma mulher solteira à procura, na cabecinha doente dele.   De meia em meia hora alguém ligava perguntando quando nosso tour acabaria. 
    No dia seguinte, já pobre e à pé, decido caminhar pelos corredores infinitos de Connaught Place, paraíso dos turistas com suas lojas com preços e marcas para todos os gostos. Em questão de meia hora, um novo seguidor. Incrível. Exalaria eu ferormônios ocidentais exóticos? Teria eu cara de quem quer doar seus tesouros mais íntimos? Estava eu registrada em alguma agência matrimonial sem saber? Talvez  em alguma outra chamada Coitus proibidus? Desta vez, meu stalker foi muito cortês, educado e até sutil. Manzoon era seu nome. Começou argutamente comentando que nota o assédio que os turistas sofrem com os indianos... hum.... providencial. Disse que devia ser desgastante e coisa e tal. Sendo ele turista em Deli também, pois sua cidade ficava bem distante de Deli, pensei se ele sofreria o mesmo assédio, vingativa que sou. Fomos a um café. Hoje há cafeterias deliciosas aqui. Fomos a várias livrarias e hum, até aceitei jantar com ele depois de alguma - sempre educada - insistência. O inevitável teve um certo tom histérico. Ao final do jantar Manzoon estava atacado, alterado, beirando mesmo a histeria, querendo que eu tomasse o avião no dia seguinte com ele para Manali, a cidade onde ele mora! Pode? Pode sim. Perdi naquele momento toda a fé nos indianos, se é que cheguei a ter alguma. É claro que eu não vou voar com você para sua cidade amanhã!! Está louco? Ele se sentiu ultrajado e saiu do restaurante ventando, quase sem se despedir de mim. Mas estou aprendendo... aos pouquinhos. É só dizer Shanti, Shanti quando algo dá errado e a outra pessoa se estressa, na tentativa de acalmá-la. Cada vez que alguém me diz isto, tem o efeito rebote, e eu me sinto muito mais irritada do que antes! 

    Agora estou em Rishkesh, cidade à beira do sagradéééérrimo Rio Ganges, que também é uma deusa, que veio para salvar o mundo e purificar os homens. O rio aqui é limpo e cristalino, pois está aos pés dos Himalaias, distante de sua nascente apenas 200 km. Depois, pelo que sei, e vocês também, ele torna-se um rio sujíssimo, fedidíssimo, poluidíssimo, mas continua sendo sagradérrimo e continua purificando os pecados. Entre pecadora e imunda, prefiro o primeiro. 
   Esta cidade charmosa, com belas vistas das montanhas e do rio Ganga - como aqui é chamado - ficou famosa com os Beatles, sim, aqueles lá, nos anos bolinha, porque eles vieram visitar o então guru deles, Maharishi, que levou a meditação transcendental para o ocidente (e nunca mais trouxe de volta). Além disto, é o berço do Yoga, e tem um sem número de ashrams que são escolas e templos ao mesmo tempo, onde as pessoas praticam yoga, meditação e sei lá mais o que. Isto faz com que o local, no caso, acho que o país todo, esteja cheio de turistas-viajantes-com-cara-de-bolo-de-fubá-mal-cozido. O que eu quero dizer com isto? Bem...vejamos. A verdade é que isto aqui atrai um tanto de gente esquisita. Tá certo, eu estou aqui e devo ser lá bem esquisita, mas acreditem se quiser, há gente mais esquisita do que eu! Andando pelas ruas, ruelas, escadarias e afins, além de vacas você encontra aquelas pessoas com cara de santo, olhar perdido no horizonte, como quem diz "ahhhhhhh,eu estou iluminaaaaaaadooooo...".Ai, dai-me paciência. E a maioria se veste com roupas indianas dos pés à cabeça. Eles usam mais roupas indianas do que os próprios indianos! Não é o máximo? E claaaaaaaaaro, terceiro olho colado na testa, anéis em todos os dedos dos pés, das mãos, do nariz, das orelhas, ahhh, que lindos!... Quanto a cara-de-bolo-de-fubá-mal-cozido, junte a cara de 'sou iluminado', com 'sou bom moço ou boa moça'e roupas de tons beeeem pastéis, azulzinho, amarelinho, cruzinho, branquinho... é isto que eles usam. Não dá vontade de bater? 
   Bom, então o que eu, um ser tão não-iluminado, não-cru, e bem cozida estou fazendo aqui, né? Tipo assim, se eu sou tão boa, tão fudida, o que estou fazendo neste antro de seres pseudo-yoguis? Aí é que está! Veja bem, não olho pro próprio umbigo! Estou fazendo um curso de massagem ayurvedica. Aí, pronto, falei. Confessei. Pra piorar, olha o nome: massagem ayurvedica. Não é o máximo do tal bolo de fubá? Mas eu tenho certeza de que todos gostariam de experimentar a massagem. Hoje foi minha primeira aula, começamos pelos pés. Imaginem vocês, a sujeira de um pé bem indiano com óleo misturado. Mas nesta aula de hoje só estávamos eu, o professor e uma amiga canadense que mora aqui. Ou seja, que também tem pés indianos. Então éramos 4 pés sujos e 2 limpos. 20 artelhos sujos e 10 limpos. E assim sucessivamente. Mas quem está na Índia é pra se sujar. Amanhã subiremos para as pernas. Depois de amanhã, ... meu professor disse para irmos mais cedo, por que será?"






segunda-feira, 14 de abril de 2014

Pequena Fábula para ilustrar o Crônicas...

De Passagem

Um viajante chegou a uma humilde cabana, onde se dirigiu pedindo água e pousada. Quando chegou foi recebido por um monge que lhe ofereceu acolhimento. Ao reparar na simplicidade da casa e sobretudo na ausência de mobília, curioso indagou:
- Onde estão os teus móveis?
- Onde estão os teus? - devolveu o monge.
- Estou aqui só de passagem - respondeu o andarilho
- Eu também...