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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Viajantes: Personagens da Vida Real Reloaded


Continuando com as pessoas fantásticas que encontrei pelos caminhos errantes ao longo de estradas e países. Às vezes, em viagens longas, faz bem abandonar o livro que ajuda a matar o tédio entre longas distâncias, para ler as pessoas (no caso, hoje em dia, abandonar o smartphone que não nos deixa levantar os olhos). Pessoas são infinitamente mais originais que qualquer exercício de imaginação. Universos ambulantes que mal podemos suspeitar. Aqui apresento-lhes minha breve experiência com dois deles. 

Felicítas. Advogada argentina de 20 e tantos anos. Em Assilah, cidade litorânea do Marrocos. 

Esta mulher com jeito e cara de menina, estava hospedada em um albergue cujo dono, Tarek, artista marroquino falante de espanhol, ficara amigo da minha irmã, Camila. Ela havia comentado que na noite anterior, numa festinha no albergue que eu não quis ir, havia chegado esta menina, Felicítas, toda perdida e engraçada. Sem saber direito o que estava fazendo ali. O nome dela, segundo a própria, tem que ser pronunciado como se conjuga o verbo felicitar. Eu felicito, tu FELICÍTAS. Assim, está certo. Muito bem. Na noite seguinte. saímos pra jantar e lá estavam algumas pessoas hospedadas no albergue. Tarek, o dono, que para mim parecia muito o ex-presidente argetino Carlos Menem. Ele, em si, um personagem curioso. Tinha grossas costeletas e o rosto bem definido e quadrado, queimado de sol. Parenteses sobre como o conhecemos. Estávamos andando pela parte antiga da cidade de Assilah, belo dia de sol quando voltei alguns metros para refazer uma foto. Quando olho adiante, Tarek, que surgiu praticamente da 5a dimensão, pois não o vimos, já havia fisgado minha irmã pra conversar. Pensei, puxa, em 2 minutos que me desligo já cai um perdido nos encantos da sereia. Mas o estranho é que ele parecia muito ser gay. Vestia um shortinho listrado de branco e preto de malha!!! pasmei. De malha? Curto? Meio enfiado na bunda. Ah, me poupe. hahaha e tinha o cabelo preso num rabo de cavalo e as costeletas emoldurando o rosto. Pra mim era uma versão gay do Menem. Mas ele não era gay. Apenas parecido com o ex-presidente. Voltando ao jantar. A língua falada ali era espanhol. Eu era a única que não era fluente, o que me fazia parecer meio tonta, tentando articular lentamente o que queria dizer enquanto todos pareciam metralhadoras falando com vários sotaques distintos. Pois foi assim que comecei a falar com FE-LI-CÍ-TAS. Ela começou me dizendo que tinha perdido o avião de volta pra Espanha, de propósito. E que o namorado dela, brasileiro, estava um bocado bravo, pois eles haviam combinado de viajar juntos, passar uns poucos meses na Espanha. Ela estava em um ano sabático do escritório que ela trabalhava em Buenos Aires. Já ele era dono de um albergue em Salvador, Bahia. Durante a viagem pela Espanha ela decidiu que iria dar um pulo no Marrocos. E foi, decidida e empoderada. Ele ficou esperando. Mas ficou mesmo puto da vida quando ela perdeu o avião. De propósito. E estava lá, com aquela cara de perdida, mas de feliz. Meio arrependida, meio marota. E foi quando eu me lembrei que ela era argentina e que poderia se lembrar do Menem (que beijou a Xuxa na época, se não me engano), garanhão e com as costeletas como marca registrada. Eu lhe perguntei, você deve se lembrar do Menem, não? Seu ex-presidente. Ela fez uma cara de susto e colocou uma mão na teta, esquerda, a propósito, mas isto eu não reparei na hora. Eu continuei, inadvertidamente. Pois então, lembra ou não? E ela, meio a contragosto, disse que sim. Eu continuei, olha o Tarek. Ele não lembra o Menem? Cara feia de novo e mão na teta esquerda de novo. E eu nem percebendo nada. Insisti e ela dispara: olha, não é legal ficar falando do Menem. Traz má sorte. Ninguém na Argentina gosta de falar o nome dele, e se você falar, melhor colocar a mão no seio esquerdo pra evitar a má sorte. E eu, incrédula, comecei a gargalhar. Não podia acreditar. Por quê? Coitado do Menem, eu disse. Cara feia e mão na teta esquerda. Neste momento eu aderi. Porque queria continuar explorando o assunto e não podia crer que uma advogada, inteligente, viajada e esclarecida era tão supersticiosa. Então eu chamei o outro argentino da mesa e contei a história pra ver se ele confirmava. Já nesta hora eu colocava a mão na teta esquerda junto com ela (calma, cada uma colocava a própria mão esquerda na própria teta esquerda) porque queria evitar mau agouro. hahahaha. Era muito engraçado. Mas o outro argentino havia deixado o país dele muitos anos antes e não sabia de nada. Terminamos a noite comprando algumas poucas garrafinhas de cerveja local, vendidas nervosamente no mercado negro, contrariando o bom senso que o Ramadan sugere. Pagamos entre 4 e 5 euros por cada mini-cerveja, uma pequena fortuna, mas ficamos muito felizes pois desde o começo da viagem, semanas antes, queríamos beber algo alcoólico, sem sucesso. Menem, mão na teta esquerda, não deu má sorte, ao fim da história. 




Zafer, turco, 42 anos. Em Ko Chang, ilha na Tailândia. 

Não me lembro onde exatamente conhecemos Zafer e seu primo. Estava passando uma semana com Núria, minha amiga catalã, nesta ilha da Tailândia. Descobrimos que pra conhecer a ilha precisaríamos alugar motos. Mas nenhuma das duas sabia dirigir motos. Foi quando conhecemos Zafer, e depois de muita conversa, propusemos alugar duas motos. Ele me levaria de garupa e o primo dele levaria a Núria de garupa. Assim todos nos divertiríamos e teríamos transporte compartilhado. Zafer era alto, bem alto, e recém-magro. Segundo ele, havia perdido 20 quilos viajando pelo Paquistão e o Nepal, entre eternas desventuras em série que ele atraía como moto contínuo. Se falar a palavra Menem dá mesmo azar, eu diria que Zafer era o próprio Menem, pobrezinho. Solteiro, não deixou claro se convicto ou não. Havia abandonado seu bar em Istambul, ou doado, dependendo da interpretação. Iria receber 20% do lucro pelos 5 meses seguintes. Quando perguntei se o havia vendido a resposta foi categórica: não! eu o dei pros meus amigos. Mas por quê, Zafer? Deu? Ah, eu não queria trabalho... então o dei. Mas quando eu voltar a Istambul poderei comer e dormir lá vitaliciamente. Hummmm. Investindo na velhice, hein, Zafer? Plano de aposentadoria magnífico. Nos contou que tinha um filho de 2 aninhos. Com a irmã.... Mas Zafer, isto é incesto, meu filho! Não!! Disse ele. Mas é meu filho, ponto final. Nem ousei perguntar mais nada, pois na minha curiosidade de conhecer melhor as histórias das pessoas eu acabo, por vezes, me excedendo. E depois de viajar pela Ásia por tempo indeterminado, queria se estabilizar e ganhar dinheiro para ajudar a irmã a cuidar do filho. Filho-sobrinho, imaginei eu. Ah, e o mais importante, segundo ele, é que ele tinha decidido parar de ser preso. Sim, porque segundo ele, havia sido preso inúmeras vezes na Turquia, na Alemanha e na Áustria (onde morou e se graduou em economia para nunca exercer). Causas das prisões? Inúmeras. No entanto, na maioria das vezes, por questões políticas. Ainda que anárquicas. O cara, anarquista de carteirinha, embora carteirinha soe muito institucional para um anarquista, ajudou muitos turcos a entrarem pela fronteira da Áustria para a Alemanha, pelas montanhas, na calada da noite. Criou jornais anarquistas, com a ajuda de voluntários, e na Turquia arranjou brigas sem fim com a máfia russa, que opera lá. Foi esfaqueado em diversas partes do corpo (as cicatrizes não eram muito bonitas) e quebrou outro tanto de ossos. Desde criança o rapaz tinha uma estranha "atração" pelo perigo. E pela encrenca. Órfão de pai (e posteriormente de mãe) começou a trabalhar desde os 9 anos de idade e embora tenha vivido em outros países, sentia-se turco sem dúvidas e nem senões. Suas histórias eram corroboradas pelo primo, Order, advogado trabalhista em Bremen, Alemanha. Ele sorria amarelo cada vez que eu dizia: Não! Não acredito! e ria indignada de Zafer e de seus absurdos. Order sorria amarelo, e afirmava com a cabeça querendo dizer, com os olhos, é, é verdade mesmo, o que se pode fazer? No último dia em que estivemos com eles, em uma praia pequena e desértica, Zafer confirmou sua relação magnética com acidentes. Cortou o pé profundamente nos corais enquanto gesticulava e encenava uma de suas histórias fabulosas. Última vez que o vi, estava dando pontos no hospital, sorrindo e acenando pra nós. Está tudo bem, ele disse, com olhos bondosos e sorriso de menino, é assim mesmo, fazendo gestos com as mão. Boa viagem, e evitem encrencas, meninas! Nós sim, Zafer, evitamos!
Alguns poucos meses depois, estava em Istambul com minha irmã e meu ex-cunhado turco. Andávamos por uma área de bares e discotecas. Vi o nome do bar que Zafer havia me dito que teria sido dele. Encontrei mesmo ao acaso, lembrava que era a tradução de Anjo em turco, acho que algo como Melek. Mas também pelo desenho de um anjo. Coincidência total. Entramos, bebemos e dançamos a noite toda. O ex-sócio dele estava lá, ficou feliz de saber que eu havia conhecido Zafer e confirmou todas as histórias malucas que ele havia me contado. Rimos muito. E como diz uma amiga, o mundo é uma quitinete.




quarta-feira, 4 de janeiro de 2017


A CARA DA FELICIDADE ... QUANDO VOCÊ VIAJA LIVRE, SENTINDO-SE CONECTADA COM A NATUREZA E SEU CORAÇÃO. NADA DA ERRADO, TUDO ENTRA EM SINTONIA PERFEITA E PERFECT TIMING. ISTO TUDO É QUANDO OUVIMOS O CHAMADO DA NOSSA ALMA. MAS RARAMENTE OUVIMOS...


MEMENTOS. VIAGENS POR AÍ.



domingo, 11 de dezembro de 2016

Viajantes: personagens da vida real.

         Não raro, em viagens principalmente, pois é quando estamos mais abertos a olharmos para o mundo além do nosso próprio umbigo fedido, conhecemos pessoas sui generis. Aquelas que nem nossa imaginação mais inspirada poderia criar. Cujas personalidades, atitudes e histórias (de vida ou inventadas), colocam as fantasias de Macondo, em Cem Anos de Solidão, no chinelo. Na sola do chinelo. A cada bocado de quilômetros rodados, voados ou camelados, não ganhei milha alguma, mas conheci pessoas que me fizeram me sentir parte de um enredo mais intrincado, genial e imprevisível do que eu seria capaz de inventar com minha própria vida. Pois esta crônica é dedicada a cada uma delas. Que serão adicionadas cada dia mais, conforme minha memória traquinas  me presentear com seus achados. Os nomes destas pessoas foram mantidos os mesmos, assim como suas nacionalidades, embora eu pudesse mentir que eles foram alterados para proteger suas identidades. Portanto, qualquer semelhança com fatos reais, não, não, não é mera coincidência. 

Ram, sexo masculino, idade imperscrutável, da religião Sikh. Pushkar, Rajastão, Índia. 

       Descendo uma ladeira que daria no famoso e sagradérrimo lago desta charmosa cidade (que depois veio a mudar completamente) no noroeste da Índia, descíamos tranquilamente, Camila, minha irmã e eu. Era uma tarde ensolarada e preguiçosa. Detesto esta descrição. Não, a tarde não era preguiçosa. Eu e minha irmã sim. Então vou alterar. Era uma tarde ensolarada e eu e minha irmã, descíamos uma ladeira, preguiçosas (como sempre). As lojas neste ponto da rua já estavam rareando, quando este homem de turbante (típico dos seguidores da religião dele)  bigode preto grossssssso e lustroso, nos convida a um CHAI (chá), usando a estratégia mais manjada possível para atrair clientes. Come drink some tea, and look my shop. No, thanks. Yes, please. No, thanks. Yes, please. Ok. Tea. Metade do copo de açúcar e o resto de chai. E no segundo segundo de conversa, Ram já estava hipnotizado pela minha irmã. Parece que o bigode dele ficou mais preto e lussssstroso de repente. O turbante mais ereto. Ram mais falante e galanteador. Vendia prata, outras pedras preciosas. De certa forma, interessava à minha irmã, não necessariamente naquela hora, naquele dia, mas ele faria valer cada minuto do tempo dela ali, na companhia dele. O sultão do Rajastão chamava minha irmã de Kamela, olhando beeeeeem profundamente nos olhos dela, alisando o bigode, e tentando segurar sua atenção por mais um tempinho. Quando ia falar o nome dela, parava um segundo, fazia uma pose de importante, aumentava o tom de voz e olhava pra ela: Ka-me-laammmm. Bem pronunciadinho. Tudo intenso. Prata vai e prata vem. Fui ficando meio cansada, embora me divertisse com Ram. Ram queria se livrar de mim. hahahahahaha. Sim, queria. Tudo o que eu perguntava, que via na vitrine, pela parte de dentro, ele dizia rapidamente, ah, pode pegar ali e olhar. Tipo, te vira, guria, não me tira a atenção destes olhos azuis. Não foi nossa única visita à loja. Impossível que fosse. Aquilo virou um passeio, uma atração pra nós. Em uma destas visitas Ram foi buscar um saco enorme. Eram fotos dele. Feitas em estúdio, em sua maioria. Ram de frente, Ram de lado, Ram fingindo não ver a câmera, Ram com o olhar perdido no horizonte, Ram assim e Ram assado. Ram era muito vaidoso, sim? Ram e seu saco de fotografias me fazem sorrir. Pois e não é que, em outra visita falamos sobre nossa cidade natal, Ribeirão Preto, e ele pede pra escrevermos nosso endereço. O meu, no caso, pois Kamelammm morava na Inglaterra. Escrevi e ele olhou, olhou e foi buscar algo. Disse, olhem! Tenho uma amiga da mesma cidade de vocês... Não pude crer. Era verdade. Da rua abaixo da que eu morava na época. Disse ele que ela era fotógrafa e tinha esquecido um vestido lá. Deixado, acho. Não sei se esquecido. Me propus a levá-lo pra ela, mas acabamos nos esquecendo dele também. Anos depois, quando Kamelammm voltou a visitar Pushkar, Ram não morava mais lá. Tenho certeza de que a cidade ficou mais vazia sem ele. Alguns meses depois, conheci a tal fotógrafa e rimos muito das histórias de Ram.

Ohad, 22 anos, judeu, israelense, sul da China, a caminho de Jinghong. Ah, sexo masculino, alma, feminina. 

         Era um dia particularmente difícil pra mim. Despedi-me na véspera de alguém que tinha sido muito importante na minha viagem pela Ásia, e também na minha vida. Viajamos por mais de 2 meses, de aventuras e muita sintonia. Ainda estava abalada com a despedida quando fui para o ponto de ônibus nesta cidade chinesa, Kunming, que não podia deixar boas impressões e lembranças. Notei um rapaz franzino, vestindo sei lá o que era aquilo.... parecia uma fralda, algo como o que Gandhi costurava pra ele mesmo. Mas mais tosco. Ele esperava o mesmo ônibus, acreditei, Certamente ele era um mochileiro, mas não carregava exatamente uma mochila. Levava uma trouxa, pendurada no ombro. Pensei, que ser ímpar... mas eu não estava pra conversa. Viajaríamos por 12 horas em direção ao extremo sul da China, e eu nem bem sabia o que eu estava indo fazer lá. O ônibus chegou e era pra ser um ônibus leito. Bem, e era. De acordo com um país de mais de um bilhão de habitantes, de onde a cada porta que se abre, saem pelo menos 100 pessoas. As caminhas, ou seja, os leitos, eram como beliches. Havia 3 fileiras delas, emparelhadas. Ou seja, uma à direita, outra no meio e outra à esquerda. Eram frágeis e sem apoio, Se bobear, você cairia dela. Impossível dormir ali. Sentar tampouco, pois a altura do teto não permitia. Abaixo de mim, outro ser dormia e vários pegavam uma "beira" na cama do coitado. Ohad estava bem ao meu lado, flutuando como eu no ônibus sem conforto, se segurando pra não cair e fugindo das cabeças e cotovelos das pessoas que viajavam de pé, sim, de pé, fungando na nossa cara, cangote, virilha, sei lá. Apesar do meu azedume, começamos a interagir um pouco devido as dificuldades de nos manter no alto, da impossibilidade de dormir e do gelo do ar condicionado. Ao chegarmos em Jinghong, já havíamos combinado de arrumarmos um quarto, bangalô, o que fosse, pra dividirmos. Ohad queria caminhar enquanto procurávamos, mas eu estava moída. Insisti em arrumarmos um táxi e descobri que Ohad era o bicho mais pão-duro que eu poderia encontrar... e olha que conheci muito viajante pão-duro. Apenas nesta vez ele topou gastar com o táxi. Mas depois ele me faria economizar cada Yuan que gastamos na corrida. Menos história e mais biografia. Ohad era um menino puro, bem molecão, que tinha uma mancha no seu passado... abandonar o serviço militar israelense antes de cumprir os 2 anos. Bem, mesmo sabendo da exigência do serviço militar deles, não imaginava que esta atitude poderia ter consequências sérias pra ele. Como referências de trabalho ou qualquer uso do serviço público. Ohad não serviu nas fronteiras, não tinha que empunhar armas, nem trabalhar em um escritório sisudo e maçante. Ele era da banda de rock do exército. Tocava, ensaiava, divertia o pessoal aí de cima, do estresse. Mas mesmo assim para Ohad isto foi demais. Cara sensível, cheio de questionamentos existenciais. Não se encaixava no exército. E pagou o preço. Ia tentar ser ator. Torço pra que tenha conseguido. Mas Ohad e suas idiossincrasias não acabam aqui. Passamos apenas alguns dias dividindo o mesmo quarto, mas foram dias produtivos e curiosos. Ele meditava todas as noites sentado na cama, virado pra parede de madeira vagabunda. Olhava um ponto fixo. Meditação zen-budista, disse ele. Queria que eu aderisse a esta técnica. Insistiu. Mas Ohad, meu amor, eu já tenho a minha própria que uso há anos. Que é qual? Nenhuma. Então vai meditar assim, sim, sra. E lá ia eu, olhar pro ponto fixo na madeira. Pois foi assim que Ohad me contou a história de sua irmã, monja zen-budista. Ex-lésbica, casada espiritualmente com outra monja-zen budista. Viviam em um mosteiro acho que no Japão, mas se conheceram em um mosteiro sei lá onde. Mas Ohad, meu querido, não tem isto de ex-lésbica. E não tem isto de ser casada espiritualmente com outra monja. Tem, sim. Mas como? Tendo! Eu que era a limitada e não conhecia nada de monjas-ex-lésbicas-casadas-espiritualmente-com-outra-monja-ex-lésbica. E isto era muito sério pra ele, que admirava imensamente esta irmã, que pelo que percebi era uma pessoa muito carismática segundo os relatos dele. E devia ser muito convincente pra fazer alguém se casar com você sem poder fazer nada mais. E Ohad também tinha outra irmã mais mundana e engraçada e uma mãe também descolada que o encontraram em duas ocasiões na viagem dele pela Ásia. Eles fizeram trilhas, nadaram em cachoeiras, praias, acamparam, subiram montanhas, o escambau. Ohad tinha uma coleção bizarra de fotos da mãe e da irmã fazendo suas necessidades ao ar livre, ensandecidas com ele tentando fotografá-las enquanto se equilibravam. Ele tinha muito zelo por estas fotos. ???? Ohad sonhava em parir. Mudar de sexo, Ohad? Não, não. Apenas parir. Gestar e dar a luz. Ah, bom, entendi. Ohad tinha emagrecido 12 kilos durante a viagem. Fazia tudo que fosse possível à pé, comia o mínimo e economizava o máximo. Tinha um montão de grana guardada ainda. Mesmo depois de 6 meses na estrada.  Ficava muito bravo porque eu não comia toda a comida do prato, mas eu estava super triste ainda com minha despedida e não conseguia comer. Inventei uma dor de garganta. E ele, então deixa que eu como. Nestes dias juntos eu também acabei economizando uma boa grana. Ele tinha todos os esquemas de entrar nos parques naturais sem pagar, mesmo que isto implicasse em pedalar por dezenas de quilômetros a mais. Um dia, descolou carona pra nós em um caminhão de abacaxis. Os chineses ficaram com dó da gente ir lá atrás com os abacaxis e deixaram a gente ir com eles na frente. Surpreendente por 3 motivos: chinês não dá carona, chinês não quer saber de ajudar estrangeiro e eles não falavam uma única palavra de inglês. Ohad era um cara genial. 

La calva y la rastafari. Alemãs, jovens, perdidas por aí.

         Talvez em algum lugar do meu diário de bordo eu tenha anotado os nomes destas meninas alemãs com quem cruzei um par de vezes em cidades distintas. Como a própria descrição inicial diz, uma era careca e a outra rastafari. O nome cunhado em espanhol foi dado por Núria, uma amiga catalã que fiz depois de Ohad e que viria a viajar por muitas semanas comigo, de maneira intermitente, por vários países. Ela também se encontrou em distintos lugares com as duas, algumas vezes comigo junto, outras sozinha. Elas muito provavelmente eram um casal, mas em nenhuma das nossas animadas conversas isto foi mencionado. A primeira vez que as vi foi no bangalô-palafita que aluguei com Ohad. Eram nossas vizinhas de frente e estavam sempre sentadas no chão, na terra mesmo, debaixo de uma árvore que nos separava. Como muitos dos alemães da idade delas (pelo menos na minha experiência como viajante), elas se vestiam como mendigas. Não que meu guarda roupa fosse um exemplo de classe e bom gosto a esta altura, mas Ohad e elas se destacavam pelo despojamento anti-estético, por assim dizer. Nossa primeira conversa foi sobre uma aventura que elas estavam prestes a começar. Digamos que uma aventura baseada nos episódios de Jack Ass, onde o fim desastroso já está previsto. Elas iam comprar duas bicicletas que os locais usavam para transportar de tudo: botijão de gás, animais, lenha, capim, frutas, you-name-it e atravessar a fronteira até Laos. As bicicletas tinham design estúpido pra tal façanha. Eram pesadíssimas (só de olhar dava pra saber), feitas de ferro, rodas pequenas, e o compartimento para levar carga a deixava mais pesada ainda. Mas era pra carregar as mochilas delas ... ahhhh, bom, entendi agora. Meu espírito de aventureira masoquista me levou ao ímpeto de me convidar para ir junto. A coisa mais idiota que poderia me ocorrer. Mas eu queria algo que me tirasse da minha melancolia dos últimos dias. Nada melhor do que uma coisa ridícula destas, fadada ao fracasso. Ok, elas disseram. Mas você precisa comprar uma bike destas até amanhã à tarde, pois partiremos em 2 dias, bem cedo. Passei o dia seguinte percorrendo a cidade e querendo comprar a tal bicicleta suicida de algum morador. Não havia em lojas, não naquela cidade. Ninguém queria me vender, o que era óbvio pois estas pessoas as usavam pra trabalhar e o que uma estrangeira sem noção queria com uma bicicleta utilitária daquelas? Voltei desolada e contei à calva y à la rastafari meu insucesso. Elas me disseram que ainda havia uma chance. Se uma destas bikes delas tivesse conserto, elas levariam minhas bagagens e eu iria com uma bike comum. Elas pediram pra eu esperar até o fim da tarde, quando teriam resposta do cara que estava tentando o conserto. Nada feito. Fiquei frustrada, mas desejei-lhes boa viagem. Elas partiram assim. Uma bike normal e a outra utilitária levando a bagagem das duas. Uma semana depois, encontrei com as duas em uma cidade de Laos. Fui correndo pra saber como tinha sido a loucura. Durou meio dia. Acontece que a bike utilitária quebrou, o trajeto era montanhoso (eu bem que pensei nelas no caminho da travessia China-Laos,e me senti aliviada de não ter ido quando vi as montanhas), era impossível pedalar depressa e por muito tempo. Tiveram que acampar até o amanhecer e tomar um ônibus. Que pena, meninas... Fomos tomar uma cerveja na beira do rio. Ver o pôr-do-sol e celebrar a vida. Ainda encontraria com as duas em outras cidades, sem esperar, sem combinar, mas sempre um encontro inusitado e inspirador (elas e suas ideias que não paravam de brotar). 



Mais personagens da vida real, em breve. Nos próximos episódios.





terça-feira, 19 de julho de 2016

Marrocos, pisando no continente africano.

        A primeira visão que tive do táxi, assim que desembarquei em Marrakech, ou Marraquexe, na versão em português, foi de um menino, adolescente, pedalando sua bicicleta em alta velocidade, vestindo seu djellaba branco e chinelos. O que me impressionou foi que, mesmo com o trânsito relativamente pesado, ele pedalava e digitava em seu celular, sem tirar os olhos da tela. Tive vontade de gritar pra ele  (na minha cabecinha doente e cansada de vôos chatos e esperas longas), com sotaque do Piauí, não sei por quê: Oxe, menino, olhe pra frente que tu vai é arrebentar esta tua cabeça  numa tamareira. Passado o surto, olhei ao redor. Mais de 10 da noite, um calor seco e ainda muitas pessoas na avenida larga, margeada por um jardim longilíneo  e muito bem cuidado que continuava por quilômetros sem fim. Famílias, grupos de garotas e de garotos, crianças, conversando, sentados na grama, ou caminhando. Parecia propaganda de shopping center, não fossem as vestimentas muçulmanas e o toque oriental da vegetação. Bom, poderia ser propaganda de um shopping center no mundo islâmico, né? Tudo muito limpo, aparentemente seguro. E eu esperando o mesmo choque de quando aterrizei em Nova Delhi, anos antes, numa noite gelada no meio de um blecaute. Mas agora era diferente: sem sujeira, sem animais na rua, sem vaca, sem bode, sem cabra, sem tuk-tuk, sem (muita) poluição, sem ônibus capengas e coloridos... Acorda, Andréa, você não está na Índia. Mas que estranho, pensei que fosse chegar lá, de alguma forma não cartesiana, já que meu vôo era pro Marrocos... Mas por que as pessoas estavam até tão tarde na rua? Por que algumas pessoas usavam a camisola e outras não? Depois minha irmã - de novo ela nas crônicas, lá vem ela, lá vem ela - me ensinou que era djellaba e não camisola. Foto ilustra melhor, né? 




        Eu pouco havia me informado sobre o Marrocos. Sou destas. Meio por preguiça, meio por comodismo (já que minha irmã tinha me dito que estava com vários guias que ela emprestou da biblioteca de Barcelona - vim a saber depois que era tudo mentira, que ela pegou mas não leu, a ordinária), meio que porque eu amo ser surpreendida e não gosto de ficar criando expectativas. Três meios... mas pouca informação. O que pode ser uma benção ou uma catástrofe. O máximo que fiz foi reservar um riad (algo entre hotel e pousada) e combinar um transfer pra me buscar no aeroporto. Muitos progressos. Idade avançada e uma certa precaução por traumas anteriores operam milagres em alguém que detesta muito planejamento. 
        Pois o motorista me deixou direitinho bem em frente ... a um labirinto de ruas e ruelas estreitas e escuras em frente a uma entrada, já dentro da medina. Lá fui entregue às mãos de um homem de meia idade que se identificou como ... nada, na verdade ele pegou uma de minhas malas, sorriu e disparou labirinto adentro, falando a cada 5 palavras em árabe, uma em francês... Eu arrastava minha mala de rodinhas pelas pedras imperfeitas e pensava, caracoles, onde este cara tá me levando?. Escuras e estreitas, as ruazinhas da cidade antiga ainda tinham moradores passeando, crianças brincando e uma turista com cara de e.t (moi). Pensei nos filmes do 007 ou do Ultimato Bourne.  Eles bem que poderiam ter cenas de perseguição filmadas ali. Chegamos à uma das portas cheias de personalidade, que são as únicas coisas que diferenciam o emaranhado de paredes e muros do labirinto. Fatima, a faz tudo do riad, me esperava de pijama. Um charme. Me ofereceu chá de menta e especiarias e não parava de falar de tudo que eu poderia comprar, comer, gastar ali. E eu querendo uma cama. Bem, eu a consegui, momentos depois. Aparentemente limpa e confortável, mas que escondia seres terríveis que viriam a se alimentar do meu sangue (e da minha irmã, a partir do dia seguinte) deixando marcas que ainda não saíram do meu corpo. Bed bugs. Bad bugs, too. Not good bugs at all. Percevejos. Aqueles mesmo, da música, que fizeram combinação com as pulgas e fizeram serenata debaixo do meu colchão. Quando criança eu ouvia esta música grudenta e achava engraçado. Até que centenas de picadas infeccionadas começaram a aparecer depois do 3º dia por todo meu corpo... Um pesadelo. Fui obrigada a tomar antialérgicos e anti-inflamatórios por uns dias e andar como zumbi por Marraquexe, mal conseguindo pensar e caminhar. Não, não foi nada bom. Rien de rien. Viajei pela Ásia por 9 meses, dormi em camas de palha, em travesseiros de arroz, no chão de casas de tribos, em muquifos inomináveis... e ali, naquele riad arrumadinho, cheio de decorações bacaninhas, um iogurte divino, os demoniozinhos me esperavam. O calor de fim de primavera, girando pelos 40 e poucos graus, não ajudou muito. Isto certamente contribuiu pra minha experiência na cidade não ser das melhores. Nem as pedras que as crianças me jogavam me irritava tanto (ahahahahaha). Sim, elas ME jogavam pedras com uma certa frequência. Digamos que eu tentava interagir com elas mais do que elas queriam. Elas não aceitam fotos, não gostam que você tente falar com elas, brincar, sorrir, de preferência, nem olhe para elas. Mas eu virava e mexia me esquecia e dava bronca quando elas brigavam entre si, queria fazer uma gracinha ali e uma interaçãozinha acolá. Eu me virava, caminhava um pouco, e logo vinham pedras na minha direção. Uma vez duas meninas me jogaram pedras do alto de uma janela. Noutra vez, um menino me jogou um limão cascudo, porque acho que ele estava sem pedras no momento. Depois de tantas tentativas frustradas e empedradas, eu procurei me policiar. Minha irmã vivia me chamando a atenção e me lembrando de não interagir. Era difícil. Mas eu também não queria acabar tomando uns pontos na cachola. 
        Um outro fator que nos fez questionar a visita à Marraquexe foi o fato de termos chegado bem no meio do Ramadan. Bem, pra quem, como eu, tem conhecimentos parcos sobre o islamismo, ou qualquer outra religião, divido o pouco que aprendi. O Ramadan é um período de 30 dias que ocorre todos os anos em países muçulmanos. É, segundo entendi, como seria a quaresma dos cristãos (quando ela era levada a sério mesmo). É um tempo de jejuar, orar, fazer caridade, tempo de tolerância, e de se sensibilizar ao sofrimento alheio. No caso, através da fome, pois o jejum é rígido: começa às 3 da manhã e vai até o por do sol seguinte.  Detalhe: nem água se pode beber. Nos primeiros dias eu achei muito estranho mesmo um fato reincidente quando eu ia conversar com os marroquinos: o bafo. Mau hálito, pros eruditos. Pensei que fosse coincidência, no princípio. Depois pensei que fosse azar meu que só encontrava com pessoas bafudas. Depois pensei que fosse um problema nacional daqueles inexplicáveis, tipo, realismo fantástico de Cem Anos de Solidão. Mas não. Era apenas o Ramadan. Junta-se o jejum de sólidos com o jejum de líquidos. Cetose mais saliva espessa. Quem sou eu pra questionar os motivos pelos quais as pessoas seguem a risca as regras estabelecidas pelas crenças... mas achei bem sofrido. Pra nós, turistas, e pra eles. É por isto que os guias e blogs de viagem sugerem que você visite o país fora deste período. Não apenas pelo STAY AWAY: BAPHO. Mas porque as pessoas estão muito mais reclusas, muitos restaurantes fecham pro jantar, hahaha, não se encontra nem uma mísera cervejinha pra beber naquele calorão, você acaba tendo que se adequar aos horários deles. E limitações, de certa forma. Por haver um número reduzidíssimo de turistas, nos tornamos iscas mais vulneráveis aos que vivem do turismo. Donos de lojas, taxistas, agenciadores de hotéis, etc. Em Marraquexe eles chegaram a ser chatos, insistentes e até mesmo um bocado agressivos na aproximação. No entanto, foi em Essaouira, cidade litorânea charmosíssima, que vimos uma cena que beirou o hilário. Nas ruelas da medina (depois volto a falar delas), um homem tentava empurrar acomodação pra dois mochileiros meio perdidos. Eles recusaram educadamente, apesar da insistência do cara. Este, não aceitou o não muito bem. Gritou com sotaque mais forte impossível: "Tourrrrrists... rrrrrrrrubbish!" E quando nos viu rindo, gritou pra gente algo como, "é isto mesmo, turistas são lixo mesmo". Coitadinho, era a fome. Por isto, quando chegava por volta das 5 da tarde, já começávamos a ficar mais espertas: era a hora das brigas. Hora de descontar no coleguinha a fome que chegava no ponto máximo. Era um bando de homem à toa, nas praças e nos cafés (sentados sem comer nem beber nada, apenas com cara de cão pedinte), que se engalfinhavam aos berros, e com uma turma de cada lado tentando apartar. Mas logo haveria a reza antes da esperada refeição e eles precisariam estar limpinhos e calminhos. O breakfast, como eles chamam em inglês a  1ª refeição do dia, ocorre, como disse, quando o sol se põe. As famílias se reúnem, convidam amigos, preparam pratos típicos de Ramadan (como nós, com a sexta-feira da Paixão e a Páscoa). Fui convidada a uma destas refeições por uma amiga que fizemos lá. Comemos harira (uma sopa marroquina bem típica, que lembra sopa de vó), folhados recheados de carne (estes eu recusei, por não comer carne), uma farofa doce de frutas secas, tâmaras e figos secos, sucos de frutas frescas feito na hora, chá tipico (de menta com especiarias), azeitonas, e inúmeros doces de castanhas, mel e folheados. Alguns, receitas especiais apenas feitas pro Ramadan. Depois da refeição, não paravam de servir chá quentinho e doces, mais doces destes de confeitarias, em pedaços já. Pronto. Agora haveria a última reza do dia, a 5ª. Sim, prometo, a última. Os homens, em seu melhor djellaba indo às mesquitas, e as mulheres, não sei. Porque elas não podem entrar nas mesquitas. E se estiverem menstruadas, nem rezar podem. Sei que a Fatima, do riad, ia rezar, mas não sei onde. Algumas vezes vi algumas rezando do lado de fora da mesquita, na calçada, perto da entrada. Elas tem o dia certo pra ir lá e as horas definidas. Não é assim, quero ir à mesquita e fui. Nãããão. Tem que entrar no esquema. Mulé, né? Já viu. Aquela sofrência. Nem pra rezar pode direito. Eu, por um acaso, estava menstruada em Marraquexe e minha irmã me disse: olha, não fala que você está menstruada não, porque isto aqui é sujo, não podem saber. Claro. Obrigada, mana, Eu, fluente que sou em árabe, ia mesmo pedir informação assim, Bom dia. Por favor, eu estou menstruada e queria muito ir ao museu Palais Badi. O senhor poderia me dar as direções? Ou, por favor, uma garrafa de água mineral grande. Mas olha que estou menstruada, hein? hahaha. Só me divirto com minha irmã. E, pois. Comilança terminada, última reza cumprida. Hora do? Rolê. Rolegioso, como eu apelidei. Aquela galera, mesmo, todo mundo saindo das mesquitas e indo caminhar na rua. Um mar de camisolas e gorros. E lenços nas cabeças das mulheres. Todos felizes, amigos, família, crianças ( e pedrasssss) brincando nas praças, nos parquinhos, nas avenidas... Nada como uma barriguinha cheia, prosa com Deus em dia, dever cumprido. E olha que, sem colocar uma gota de álcool na boca, eles conseguiam fazer mais algazarra que muitos de nós bebendo. Passamos a usar a palavra algazarra porque eu me lembrei que um professor meu de primário (ensino fundamental, é isto hoje?) disse que as palavras começadas com o prefixo al- vinham do árabe. Então minha irmã e eu pensamos, se são árabes estão fazendo? al-gazarra. E isto ia até próximo das 3 da matina, quando soava uma sirene e todos se recolhiam às suas casinhas para NÃO fazer amor, porque nesta época não se pode. 
        No final das contas todas, creio que ter ido ao Marrocos nesta época específica me permitiu vivenciar costumes e tradições que talvez me tivessem passado desapercebidos em outra ocasião. Mas a viagem continua, e as crônicas sobre o Marrocos também. Breve, num cinema próximo à você. 

p.s. Compartilho o vídeo da música Festa dos Insetos, de Gilliard. Um clássico. 




segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Mais um tiquinho de Cuba, postagem incidental...


Já falei um pouco sobre minha viagem a Cuba em um post anterior, cujo assunto principal era uma distinção despretensiosa sobre Viajantes e Turistas.

Como há pouco eu me pus a comentar um vídeo postado por uma conhecida, no Facebook, acabei por gostar do que escrevi, pensei em dividi-lo aqui e enriquecer o blog um pouquinho, com mais um relato-pedacinho-do-mosaico-do-mundo-afora.

Pra contextualizar, o vídeo era uma jornalista (cheia de figuras de coxinhas de frango editadas sobre sua imagem, hahahahaha) e um cubano sendo entrevistado no Programa Roda Viva, TV Cultura. Nada demais. Foi editado de forma a enfatizar a resposta irreverente do entrevistado em detrimento da pergunta simplista da entrevistadora. (Ao meu ver, tudo ali foi simplista, mas divertido, de certa forma).


Enfim, to cut a long story short, vou usar meu comentário pra falar um tiquinho sobre Cuba. Ilha caribenha tão linda e propagada nos discursos pró e contra qualquer coisa política que to sem saco pra descrever... mas que todo mundo sabe sobre. 

"oi S., assisti ao vídeo com certa curiosidade... Não sou de nenhum partido, seja ele de

esquerda nem ao menos de direita, mas minhas ideias e crenças se identificam ao que se 

convencionou chamar de "esquerda", com ressalvas à cacoetes políticos. Estive em Cuba.

Viajei a ilha de norte e sul e do sul ao norte. Por terra. Como o transporte era escasso e

precário, viajei de carona, de ônibus, táxis clandestinos e até na carroceria de caminhões 

(um deles, de bagaço de laranja, que me deixou perfumada por dias! hahaha). Vi fome, vi 

dificuldades, vi opressão. O que percebi, pelas dezenas de pessoas que tive a chance de

conversar, é que, quem não tem alguma atividade no "mercado negro" ou não tem

parentes que mandem recursos do exterior, passam, sim, por apertos sérios. As "rações" 

que são distribuídas mensalmente a todos os cubanos são uma piada. Insuficiente e pobre 

em variedade. Ví com meus próprios olhos. As pessoas tem medo de falar uma palavra 

sequer contra o governo, porque há ouvidos delatores por toda a parte. Uma amiga médica,

triste com sua situação de trabalho, só desabafava comigo ao longo da praia, com muito

vento pra dissipar qualquer palavra que pudesse sair mais alta... Principalmente os mais

velhos, saudosos da revolução, mas envergonhados de dizer um "a" contra o regime, são 

os que mais sentem a pobreza disfarçada de igualdade. Não raro eles se aproximam, 

delicadamente, e aceitam o que você tiver pra compartilhar, seja um pedaço de pizza ruim

ou um refresco. Sejam uns pesos ou uma fruta. São frágeis, carentes, e um bocado

desamparados. O que acabou ficando de positivo em minha viagem, foram as recordações

de boa música e de dança solta em qualquer boteco, de norte a sul do país. Tradição que

me fez sorrir. Mas não foi suficiente pra me fazer querer voltar. Fica meu pequeno relato

. Não gosto de ideias pre-concebidas nem de uma nem de outra direção. Não quero ser

chata, mas senti que o vídeo foi bem pobre em informações. Pareceu-me um pequeno

escárnio contra a jornalista, que tampouco soube se colocar de forma inteligente.

Discussões sobre Cuba acabaram se tornando uma bandeira a favor da esquerda. Mas

acho que tornou-se um argumento muito pequeno. Aquilo lá, definitivamente, não é

bandeira pra ninguém. No entanto os cubanos seguem sendo um povo lindo, cheios de

talentos, alegres, fortes. A humanidade em nós está acima dos regimes que nos formatam

a alma,esta incorrigível, graças a deus. Abraço grande!




terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Diálogos Possíveis (no Piauí).

         Decidi reunir alguns trechos de diálogos que ouvi e vivi nestes últimos meses aqui em Barra Grande, Piauí, e inventar outros baseados nas prosas por aqui. Embora o português do piauiense seja elegante por vezes, por outras é impossível decifrar os elos da corrente, discernir uma só palavra de frases inteiras.
     
       A primeira palavra que ouvi foi 'raleu ', para indicar ' valeu', mas ainda me levou um tempo pra perceber que todos trocam o v pelo r no começo das frases. Assim, a pergunta:  "Vânia, tu vai ver a vaca do vizinho do Vitor?", ficaria, como se conclui: "Rânia, tu rai rer a raca do rizinho do Rítor?".
Ou mesmo no meio da frase como em: "Tu tarra lá na rua barrendo?", bom, neste caso o ´varrendo´ virou ´barrendo´e não me perguntem o porquê. Há muitas variações entre a língua falada no próprio nordeste brasileiro, e o que eu apresento nada mais é que um microcosmo do microcosmo. Conforme for me lembrando, acrescentarei mais mini-diálogos à crônica.

   No mercadinho:
- Bom dia. Tem gelo?
- Tem. Mas derreteu.

    Na fila do banco:
_ Tu num vai morrê marrr nuuuuncaa!
_ Oiiiii?
_ Tu num vai morrê marrr nunca. Ainda hoje falei de tu!
_ Foooiiii? 


   No posto de saúde:  (Emergência em um sábado pela manhã.)
_ Bom dia. Preciso de uma vacina antirrábica. Fui mordida e arranhada por um gato de rua esta madrugada.
O auxiliar de enfermagem, única pessoa de plantão, em toda unidade:
_ O doutor deixou ordens expressas de não dar a vacina pra qualquer um. Tu observa o animal por 10 dias, se ele não adoecer e não morrer de raiva, tu não precisa da vacina.Viiiiiu?
_ Mas eu não conheço o animal!
_ Pois mas tu observa o animal. Se ele não adoecer e nem morrer de raiva, tu não precisa da vacina.
_ Mas o gato é de rua e eu posso nunca mais vê-lo!!! Ele é de rua, entendeu? Não tem casa e não tem dono e eu não sei onde ele está!
_ Mas somente pela observação do animal é que tu saberá se precisa da vacina ou não.
_ Bom, tá certo. E se ele morrer de raiva?
_ Tá, daí então tu vem aqui na segunda de manhã e peça uma vacina pro pessoal da imunização.
_ ???


No mercadinho:
_ Oi. Tem galão de água de 20 litros?
_ Tem não. Ainda não entregaram não.
_ Ah, que pena. 
_ Mas quando entregarem eu te levo lá.
_ Mas não vai ter ninguém em casa.
_ Eu deixo bem ali, na entrada. Viu?
_ Será?
_ Ninguém vai bulí não...
_ Comigo?
_ Não, minha filha, com o galão de água! 

Na vida:
_ Ô, mininu. Tu é casado, é?
_ Arrmamaria, nam.
_ Mas eu te vi com uma mulé e uma minina ontem, passeando.
_ Tu é abestada?

No bar:
_ Ei, este cara que tarra aí é teu amigo, é?
_ É não.
_ Pensei que fosse.
_ Arrmaria, esse daí não paga o sal... 

No táxi: (em Teresina)
_ A senhora conhece a tal de Xuxa?
_ Sim. O que é que tem a Xuxa?
_ Ela num é de Deus, não...
_ Ah, não? Por que o senhor acha que ela não é de Deus?
_ Imagine a senhora que ela diz assim quando termina o programa dela: " Até amanhã, se o ´cara lá em cima´ deixar ". 
_ Sei...
_ Pois uma mulé dessas num pode ser de Deus. Imagina dizer `o cara lá em cima´?
_ (Suspiro). 
_ Num é?
_ Pois eu acho melhor ela dizer o ´cara lá em cima´ do que o ´cara lá em baixo´.

No culto (do qual eu participava involuntariamente).
O pastor pregando:
_ Porque tudo tem uma consequência... tudo... quando a gente fuma um baseado, por exemplo... (pausa), fumava! 

Na vizinha da casa da minha prima, onde fico hospedada hoje em dia, chego pra buscar as chaves que me deixaram lá.
A vizinha para mim, toda esbaforida de calor que sempre sou:
- Abençoada.
Eu, nada religiosa, não quis ser grosseira, respondo:
- Amém.
Ela riu da minha cara. 
Depois entendi que ela disse, na verdade:
- Tá bem suada.
Raca réia.

FIM


Um vídeo de um ilustre morador de Barra Grande. 









sexta-feira, 6 de novembro de 2015

o Eclipse da Lua Vermelha

    



Lua Vermelha - Maria Bethânia

Link para o vídeo aqui





      Seria em si um fenômeno raro. Um eclipse total da lua. E uma superlua. Dois fenômenos em um. Diminuindo sua probabilidade e aumentando a expectativa dos amantes da astronomia. No século que antecedeu o ocorrido, o fato tinha acontecido apenas cinco vezes. Deveria repetir-se apenas 18 anos depois. A Lua de Sangue, como foi chamada. A superlua se deu pela distância reduzida entre a Terra e o astro, enquanto o eclipse adicionaria um toque de mistério ao espetáculo. 

      Naquele pequeno vilarejo, que desafiava a norma de crescimento acelerado das metrópoles que o circundavam, alguns poucos curiosos trocavam frases de interesse pelo acontecimento celeste. Não faltariam centenas, talvez milhares de fotos e registros inundando os meios de comunicação da época para alimentar a sede de conhecimento e saciar a vontade do homem de sentir-se mais próximo do evento. Este  ainda fascinava a civilização, milhares de anos após um trovão não amedrontar mais a ignorância das tribos como sendo um deus irado. 

      Mas em Mitotes, nome do vilarejo à beira mar em que a Lua de Sangue deixaria seu rastro superlativo, os ânimos foram variando entre euforia e indiferença à medida que o sol caía em sua baía peculiarmente banhada por um por-do-sol obtuso e contundente. Baía esta, não raramente frequentada por alguns cientistas de países remotos, em estudo dos seus exemplares raros de peixe-bois mutantes, que apresentavam olhos sobressalentes nas costas, e um tom furta cor na pele outrora escura. 

      Não havia entre os pescadores, moradores, turistas, cientistas, viajantes em pouso ligeiro, errantes, bêbados e drogados, prostitutas de beira de estrada, cegos ou visionários, alguém que pressentisse o que o fenômeno deixaria como rastro imperscrutável que estava prestes a acontecer. Apenas alguns animais, sim, sempre eles ligados às batidas do coração da mãe Terra, traduziam sua frequência como uma mudança de comportamento que passou desapercebida pelas pessoas de então, que utilizavam um aparelho acoplado à própria mão para medir seus passos, ver à distância, criar realidades paralelas, dirigir, pedalar, perder peso e até viajar. Estavam continuamente entretidos com estes aparelhos e deixavam de ver os próprios pés ao caminhar. O modo como os animais interpretaram os sinais da Lua Vermelha foi pelo acasalamento aleatório entre as espécies, não fazendo distinção entre fêmeas no cio, não mais em idade fértil ou ainda imaturas sexualmente. Os porcos na rua cruzavam com as cachorras, e os cachorros por sua vez, copulavam com as gatas; os ratos com as rãs, os asnos com as vacas. Mas ninguém viu isto. Ninguém via nada, pois os aparelhos acoplados às suas mãos os impediam. 

      E assim, às 22 horas, quando o eclipse se iniciava sem demora, sem titubear, um pequeno grupo foi reunindo-se à beira da praia, deixando seus aparelhos de lado, olhando pro céu depois de semanas ou até anos sem fazê-lo. Aquilo causou um estranhamento inicial e um silêncio seguiu uma histeria descontrolada. Eles se riam nervosamente e depois soltavam urros primitivos que eram intercalados com gritos desesperados. Alguns dançavam sem música, como se ouvissem uma sinfonia vinda das galáxias.Outros inventavam histórias e as contavam, mas ninguém as ouvia. Ainda havia os que apontavam pro céu como que narrando silenciosamente o que viam e sentiam.  Quando o eclipse acabou, quase todos se foram. Mas quase ninguém se lembrava do transe coletivo que acabava de acontecer. No dia seguinte, como que numa ressaca comunitária, um sorriso amarelo estava na expressão da maioria, mas ninguém sabia exatamente o porquê.

      Foi então que, restabelecida a rotina,  fenômeno supostamente deixado pra trás, começou-se a se ouvir notícias de uma, depois outra, depois outra e ainda muitas outras mulheres grávidas. Em princípio, poderia soar como uma mera coincidência. Destas de fim de novela das oito. Mas a insistência da notícia repetida começou a causar um desconforto e uma irritação. Doze, vinte, cem, centenas, e outras tantas dezenas complementares de mulheres grávidas. Virgens, idosas, inférteis, assexuadas, lésbicas, operadas e até mesmo uma que estava em coma por anos. Todas grávidas. Umas que estavam tentando a gravidez há anos, outras que nem mesmo estavam. Era um fato que não causava tanto estranhamento quanto ao como, mas muito mais pelas tantas quantas apareciam extremamente, indubitavelmente, irrefutavelmente grávidas. O prefeito, em estado de choque pelo fato que foi considerado um surto isolado e não uma epidemia, tomou medidas descabidas, imprecisas, romanescas. A cada 100 metros mandou instalar uns potes de barro, com uma barra de metal ao lado. Assim as grávidas com enjoo poderiam apoiar-se e vomitarem caso sentissem necessidade. Nas ruas de areia fofa mandou construir decks de madeira para que elas pudessem caminhar sem tanta dificuldade. Comprou incontáveis edições de livros sobre o que esperar da gravidez e os distribuiu por bares, cafés, restaurantes e lugares públicos do vilarejo. Começou a desenvolver uma paranoia por comprar, distribuir e desenvolver novos métodos contraceptivos que fossem eficazes mesmo em mulheres que não pudessem, a esta altura supostamente, engravidar. Ficou tão obcecado em evitar futuras gravidezes que se esqueceu de construir uma estrutura que pudesse acolher e cuidar das mães, e filhos, gerados de modo obscuro e improvável. Desta forma, houve um influxo incessante de Ongs, voluntários, órgãos internacionais, igrejas e até mesmo o governo de países próximos enviando hospitais de campanha para a chegada de tantos rebentos

      Ninguém, em absoluto, mesmo em suas mais febris especulações sobre o que teria acontecido, relacionou os dois fenômenos entre si: o eclipse da lua vermelha e o surto descabido das gravidezes. Até que, bebê após bebê, meninos e meninas, um após o outro, iam nascendo e exibindo no lado esquerdo do peito, pouco abaixo da clavícula, um sinal de nascença, vermelho, redondo, nítido. A Lua Vermelha.